
Essa não é uma história do bem contra o mal; não é uma história de bandidos e mocinhos, ou de Deus contra o demônio. Essa história é apenas essa história.
Na aldeia de Belos Prazeres, entre e , lá pelos anos de 1995 viviam mais ou menos setenta famílias ao redor do pequeno rio Caji. As casas de madeira formavam um círculo. Só havia pintura na capela e no barracão comunitário.
Um dia, à beira do rio que passava no meio, conversávamos Aquino e eu. No que ele me perguntou se realmente era belo aquele lugar. Ficamos olhando o escurecimento chegando.
Raparei como eram bonitas as luzes acenderem de casa em casa. Uma , um lampião, um fogão de lenha faiscando. Luz e silêncio. Luz pouca, silêncio grande. — Olha lá seu “Bené Cuidado”. — Seu Bené, tenha cuidado! Aquino riu a advertência. (Mas deixemos que Seu “Bené Cuidado” é de outra história.).
Aquino contou de um casal de holandeses que passou uma ocasião ali. Fotografaram os costumes, gostaram dos peixes, se tornaram familiares.
— Às vezes, era nessa hora de escurecimento, que eles vinham nus e se banhavam sem se incomodar com os olhos da gente.
Um dia, eles foram na nossa reunião, no barracão. Lá, repartimos as coisas que fazemos. A holandesa tomou a conversa e falava devagar pra gente entender. Perguntou o que era que mais a gente precisava na aldeia. Ficamos sem barulho, olhando um para o olho do outro. A mulher disse que na próxima reunião ia saber no que ajudar. Fosse a maior precisão da nossa aldeia eles iam comprar, ou buscar pra nós, onde que tivesse.
Foi uma semana de desassossego, conversamos aqui no Caji, na plantação, no jogo de bola. Sentamos no barracão tarde e noite. Na reza da capela, mexemos no assunto. Qual era a coisa que nossa aldeia estava de muito carecimento.
Chegou o dia da nova conversa com os amigos de fora. Era menino correndo, as mulheres alvoroçadas, os homens se olhando meio que vexados de falar o carecimento. Será mesmo que iam consentir com a gente?
Fiquei com a conta de fazer a palavra com os holandeses. Minha mão suava, agitei a garganta. De repente fez mais silêncio do que agora nesse escurecimento que estamos assistindo. Fui com a coragem e falei.
— Pros senhores, se quiserem ajudar o nosso “Belos Prazeres”, o que estamos carecendo, carecendo mesmo e que não damos jeito de fazer, é um sino pra nossa capela.
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