Bibico morreu

Bibico morreu

Bibico caiu do cavalo, machucou a perna, o tempo não sarou a ferida no joelho. Tem muito que a dor consome suas forças.

— A dor, madrinha, é abrir os olhos e está ainda aqui. A dor se agarrou nas paredes, no chão, amolou o vento, quer derrubar as luas, devastar o quintal.

Não tenho lágrimas, não sei se estou acordado ou dormindo. Todas as coisas nessa casa estão enrugadas de tristeza. Queria das minhas mãos criar ao menos um garfo e furar essa dor, me soltar de dentro dela.

Me dê sua benção, madrinha, e preces que me façam dormir.

Eu só entendia de ser pasto, águas de cheias, insetos da noite, coisas vivas sem nomes, galhos de nuvens, peixes bonitos, cabelos das árvores, assobios de assombrações.

Caí dentro da dor. Ela é grande e, pareço um enfeitiçado que mora sozinho dentro dela.

A madrinha saiu escondendo as lágrimas. Era noite, as festas juninas acendiam a cidade.

Numa respiração suave, Bibico teceu elogios à madrugada.

Raios mudos encheram a casa de silêncio.

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