Crônica serena para certo príncipe

Crônica serena para certo príncipe

A Praça de se quietava em mais um anoitecimento. Ainda ecoava em mim a ave Maria das seis. As ruas da cidade baixa ficando desertas, nos postes se acendiam pequeníssimas imitações do sol, luzes caíam suaves. Chegava uma brisa pacífica, luzes e ventos se tocavam. À beira do cais, embarcações pequenas dançavam devagar. Uma sensação de que tudo era pequeno e noite em qualquer lugar.

Sento-me em um banco, o crepúsculo chega recolhendo os homens e fechando portas, como tempestade que desiste. Éramos meninos a correr, subir e descer os degraus da escadaria, protegidos pelos santos da pequena igreja. Nos meus ouvidos, nos meus olhos recordações dos rostos e nomes dos meninos e meninas, dos adultos respeitados que moravam naquelas casas antigas. Na serra, as garças, num converseiro, ajeitavam-se para dormir. O ano era 1991.

Sentou-se ao meu lado uma moça. — Me deixe ficar um pouco aqui?! Acho que não estou bem. Falou de uma tontura, um enjoo. Segurei suas mãos, suava frio. — Você está sozinha?

— Não, meu namorado foi ali e já volta. Melhorou logo.

Fiz a companhia, o tempo sempre passa sem pressa para quem não está bem. Serena era seu nome, 22 anos. Após um tempo de conversa, notei que um rubor na face lhe voltava, era bonita, havia uma agitação nos olhos e nas mãos.

— Ele está demorando. Contou-me que o namorado pediu que o esperasse ali na praça.

— Foi até a barraca de flores no mercado, comprar begônias para minha mãe. É delicado, sabe?! Falou ser elegante levar alguns crisântemos brancos para meu pai. Estou tão nervosa, vamos contar aos meus pais que estou grávida. Não sei qual será a reação deles. E ainda mais essa demora, está ficando tarde. Acho que vou procurá-lo.

— A essa hora a barraca de flores já fechou. Onde mais poderia ter ido? Vou com você.

— Na verdade, ele não mora aqui. É um vendedor de livros, anda por toda a região. Veja, acabou de me presentear com esse livro de poesia.

Abri o livro, li em silêncio uns versos luminosos como o voo da última garça: “Hoje você pensou mil vezes em mim, / porque faço parte do seu coração, / do seu corpo e do silêncio que veste você de solidão. / Ao redescobrir que me ama / você vai chorar de alegria / por esse amor delicado, emocionante e raro. / Sou viajante num tempo que me esqueceu. / Beijei seus olhos para sempre / e nada foi igual depois daquele dia.”

— Ele faz pouso em uma embarcação que está amarrada logo ali. O barco se chama Príncipe. Caminhamos uns duzentos metros na direção do cais. Chegamos, olhei Serena, era a cor do espanto.

— Estava atracado nesse lugar, estivemos aqui às seis horas, quando os homens embarcavam cachos de bananas.

— Senhor, sabe nos dizer onde está atracado o Príncipe? Perguntei ao homem forte que enxugava o suor do rosto.

— Moço, você vê aquela luz quase dobrando, ela vai desaparecer daqui a pouco. É o Príncipe. Partiu faz mais ou menos meia hora.

Serena desesperada olhou ao longe a luz que quase já se apagava. O rio lento, parecia levando lágrimas, não havia estrelas no céu, nada se movia.

— Leve sua princesa pra casa, moço. Chega uma hora em que o também quer dormir. Veja o céu como está fechado, repare as garças em silêncio. Esse foi o último barco da noite.

1 / 1