A dona vira porca

A dona vira porca

Uma vez conversei com dona Nira, a mulher que todos diziam, virava porca.

Eu, menino, treze anos de idade, balançava as pernas na calçada alta, esperava os outros, era pelo meio do dia.

Dona Nira tinha um rosto com muitas e grossas rugas. Os cabelos mortos, desgrenhados, se engatavam entre si. De longe, parecia carregar a coroa de espinhos, cabelos danificados, iguais raios sem direção.

Andava descalça, mascava tabaco. Vinha da mercearia, trazia um bafejo de álcool. A mulher era gorda.

Sentou-se ao meu lado. Não tive medo, tive curiosidade.

— Ô coisinha, tu tem quantos anos?

— Treze, dona Nira.

— Tu também me chama de vira porca?

— Não chamo não, senhora!

— Olha, eu moro nessa rua no desde o tempo mais antigo. Quando todo mundo aqui ainda não era nem nascido, eu vivia já. Naquela casa que ficou velha, o tempo ficou velho.

— Tu me acha muito velha?

— Acho não, senhora!

— Mas eu sou. Sou antiga. Meu pai, isso faz tempo, era um rezador que ficou assombrado.

Aqui mesmo na rua do aviador, ele foi se desfazendo. Ninguém sabe dizer o sumiço dele.

De dia, tenho pensamentos bons sobre meu pai, mas não consigo olhar o rosto dele. De noite, vejo o rosto brabo do meu pai na frente dos meus olhos e tenho pensamentos ruins.

— Meu pai me prendeu muitas noites. Dormi no breu, no vento. Só eu via meu pai chegando pra me prender. Eu sempre vejo aquele homem velho se sumindo.

Dona Nira começou a usar uma voz inventada. Era uma voz trazida de um lugar estranho, parecia não sair da sua boca embriagada. Falou mais um pouco do pai. Agora, a voz tinha sabedoria.

— Ele tinha mãos que, à noite, se acendiam. Foi desde que numa tempestade aparou faíscas de um raio a se enfiarem feito espinhos acesos nos dedos dele.

Antes, ele pescava. Chegava em casa com os peixes respirando. Era um deus dos rios. Fez silêncio, fez uns barulhos com a cabeça. Iniciou a história de quando nasceu.

— Fazia escuro, o pai rezava no quintal, acendia a noite com as mãos. A mãe gritava de dores.

Ele levantava os braços de , quando um vento assombrado enrolou as folhas dos tamba-tajás, derrubou os bichos dos poleiros, assobiou nos tucumanzeiros, roubou a reza da boca do meu pai. Embrulhou toda a reza, botou do avesso. O pai ficou mudo de fé. Foi a noite do nosso nascimento, a noite da morte de minha mãe. Três filhas nasceram de um parto de grito nunca ouvido antes nessa estreita rua.

O vento? Esse ainda levou a respiração de minha mãe. E a verdade maior é a que eu digo agora. Nos três dias depois, todas as coisas aconteceram do mesmo jeito, com as mesmas pessoas, nas mesmas horas, nos mesmos lugares. Houve, então, três noites de agonia, nascimento e morte.

— Então a senhora nasceu três vezes?

— Minhas irmãs e eu.

— E onde elas estão?

— A mãe que me criou contou assim. Meu pai era um desesperado que só sabia chorar junto das nove meninas. Apareceram visitas, ajudas e conselhos.

Noutra noite escura de uns dias depois, ele ouviu o assobio no quintal, ouviu um riso de ave galhofeira, saiu à procura. Sentiu cobras mordendo suas penas, aranhas lhe roíam as orelhas, seus braços de apuizeiro estavam enfraquecidos, os olhos murchos. Encantados riscavam rugas no seu rosto. Nessa noite, meu pai envelheceu cem anos.

Foi visto pelo início do dia, com as feições e o corpo de um velho. Depois desapareceu.

As nove meninas foram repartidas. Os que levaram, carregaram pequenas enfeitiçadas, era o que diziam. Somente eu fiquei na casa. A irmã de meu pai se tornou minha mãe. As outras, ela disse, foram morar nos bairros antigos do Curaxi, Pajuçara, Surubeju, Curintanfã, Camarazinho, Papagaio e aí pras serras. E nunca ninguém se viu.

Nesses lugares, corre o boato que, desde uns tempos, aparece em certas noites uma porca imensa desarrumando os quintais, fuçando nos jiraus, arrastando as palhas dos tucumãs, afugentando os bichos, assustando gente, a lua se esconde entre nuvens. Aqui no beco da Pinto, até os cachorros silenciam de medo da mulher que vira porca. Muita gente fala essas coisas.

Dona Nira se ajeitou do cansaço, me olhou como quem confiava um segredo e seguiu falando no rumo da casa.

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