
Era um dragão velho, nas poucas que saía às ruas a ninguém assustava. As asas tatuadas e frias, os olhos míopes e uma brasa na língua.
Descia pelo rabo da besta, ia dar no Jaquara, era visto pelo Curaxi, de vez em quando erguia a cabeça, soltava um pouco de aura sobre alguém que passasse ou que parecesse esquecido do tempo.
Lá pelas lonjuras de certas tardinhas, sem alarde, procurava a cidade baixa, pelo mesmo caminho dos bois. Se punha acocorado na beira do rio numa prosa com a .
Saracuras limpavam-lhe as plumas, com suaves bicadas a fazerem as pálpebras se amiudarem.
Se a noite era de um olho só, desacendia as lágrimas envelhecidas e até cantava. Era , rouxinol lembrando ser um dragão fugido da guerra. Um dragão bom que tocava um instrumento, amigo das estrelas e dos cavalos-marinhos.
Em madrugadas repousava no limbo para descansar, dormia de embalo em uma cadeira rústica, sonhava com cavalinhos de balata, cavalgava as serras, desafinava o ronco.
Adormecia vestido com seus apetrechos de rei. O anel no dedo, uma bola de cristal, o colar de conchas e cascalhos, os brincos na orelha esquerda, o cocar de penas e flores e um verdejado de anjo.
Antes do alvejo do dia, distraía as nuvens tocando banjo para as garças.
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