Das histórias que eu sei sobre a luz

As madrugadas não sabem ao certo quem se levantava primeiro, seu Bené ou aquele vermelho do sol. Ele caminhava sem tropeços até a lavoura, por entre a paisagem que acordava.
O coração calmo parecia cantar no peito. Só ele ouvia as nuvens se arrastando devagarinho, engatinhando, se ajuntando. Estava sempre pronto para lavrar a Terra inteira.
Sentia a força dos raios no corpo, enxugava o rosto com os braços. Conhecia a maturidade da plantação pelo cheiro.
O sol deixava de conversar com sua pele. Seu Bené tomava o caminho de volta, os dois filhos atrás. Nessa caminhada as árvores que ele plantou lhe agradeciam. As folhas deitadas na relva, tornavam musicadas as pegadas dos três. Ele era o guia. Sabia todas as horas, mesmo os caminhos mais estreitos estavam mapeados.
Todos ouviam as palavras do melhor lavrador. Falava do tempo de plantar, de esperar, de se recolher, de fazer a melhor colheita. Compreendia o ruído do trovão, a revoada dos pequenos pássaros, os barulhos dos insetos e o que os ventos traziam.
Alqueires, alquimia, hectares, lavrador, trabalhador do campo, homem do campo. Seu Bené, homem de cuidados.
Mas, havia uma história silenciosa que ele guardava resignado. Foi no tempo da infância, dias e noites de febre, tosse, espirros e olhos irritados. Apareceram manchas vermelhas na pele, vieram as dores nos ouvidos, diarreias, outras dores e um olhar fixo que não enxergava luz nenhuma.
As rezadeiras e benzedeiras, todos os que foram levar alívios saíram quase sem esperanças. Sentiram a míngua de uma infância. Foram dez dias e dez noites de sofrimento, rezas, luas, escuridões…
Em outros cinco, brotava vida. O menino se recuperava. Todo padecimento desaparecia.
Era um milagre. Bené estava novamente de pé, depois de duas semanas. As dores e os padecimentos cessaram.
Persistiu, no entanto, como marca ou sobra da doença, aquele olhar fixo que não viu mais a luz.
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