Das histórias que eu sei sobre a luz

O que vejo na quase noite são os olhos tristonhos de seu cachorro. Uns olhos que se afinam, figurando a distância.
Seus pés descalços, você foi para a prainha onde agora seu noivo chora seu nome, Marília.

E não adianta a procissão de lamparinas, não adiantam as redes varrendo o rio; as águas correm depressa, os pescadores estão cansados por você. Nem ao menos um fio de seus cabelos responde.
Ele vinha todas as noites batendo o remo e o grito inconfundível para as chamas pequeninas que lumiavam as casas da beira do . Ele visitava você antes da pescaria.
Ele está sentado no chão da prainha, repete o seu nome e chora ofendido de rio.
Nenhum brilho no céu, a floresta fechou os olhos, é escuridão que dorme. A canção ao fundo, você nem ele jamais ouviriam, é somente a imitação do vento dessa hora. O rio está embriagado e espuma como quem brinca de mau gosto nos pés do homem domador de águas.
Todos estão de olhos vermelhos, não haverá mais buscas. Você ouve, Marília? É a sentença dos pescadores: “Água demais. Perdemos”.
Atrás de você, a noite e a floresta grande, a pouco se ouvirá o grito da guariba e ninguém se esquecerá de ter o medo antigo. Se você pensasse diferente, se lembrasse da infância, nesse mesmo lugar onde seus joelhos se ferem, bem aí depositaram aquele corpo ensanguentado e retalhado, um morto bem diante de seus olhos crianças. Você não merecia, naquela idade, a imagem aterradora. Lembra que você não dormia? Chegou a temer a prainha por algum tempo. Mas é uma história esquecida, agora tudo dói dentro e perto de você. Todos os olhos estão vermelhos de fogo, de água e perdição.
— Vai amanhecer aí? Rosto molhado, olhos ao longe. Você está sangrando, mirando as borboletas da manhã, as borboletas amarelas de Marília. Os companheiros de pesca estão de cócoras, abismados, presos pela primeira brisa, perplexos como se fosse a primeira vez que enxergassem o sol. Não dizem palavra.
— Ele é o novo morto, Marília. Como você foi? Você se encantou de água, de luz, de escuridão, desapareceu nesse rio estreito, esqueceu a fundura, a rapidez devoradora de margens… É tanto escuro…
Ele é o pescador enfeitiçado. Se você ouvisse quantas preces atravessaram a noite…! Ele é o homem que se dobra.
Daqui de onde narro eu não podia imaginar que um homem da floresta pudesse chorar uma falta. E tomara que nem um leitor duvide da sensibilidade e delicadeza de um pescador da mata de brenha.
Todos os olhos estão em você. Quando se levantará para um abraço em sua mãe que também sofre? Uma feição lenta e envelhecida rezou toda a noite um rosário choroso.
É por você que toda a prainha se aquieta, se apequena. Por você, Marília, por seu nome de poesia, soluçando nos lábios do homem que teima em segurar o rio com os olhos.
Eu não saberia dizer de outro modo. Isso tudo me causa muita confusão.
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