
O rio, corredeira indomada, trazia no dorso, o antídoto que fere, pedras rudes tatuando sentenças, areias engasgando as águas.
Sete pesadelos no mês de setembro, sete mais no mês de outubro. Às noites, me vinham os redemoinhos de água que te engoliram, minha amiga menina Jesus da escola primária.
Tu te sentavas ao meu lado, aprendíamos matemática e religião. Sumiste nos redemoinhos com tuas profecias afogadas, teus olhos pobrezinhos, foram para o tempo em que não existem palavras.
Eu te perguntava, Por que não te agarras às veias do rio? Por que não pisas as asas de um peixe? Por que não mergulhas as trilhas das folhas? Por que não olhas o céu de carvoeiro e clama a todos os altíssimos?
Afundavas sem sofrimento, como a luz entrando na música, pássaro ingênuo na arapuca. Ah, as patas desses redemoinhos!
Lembro teu rosto naqueles pesadelos, lembro teu pai e tua mãe com algemas na garganta. Eu ainda entristeço abraçado ao choro.
Lembro o dia em que desenhaste em meu caderno, ventanias nos teus cabelos, buracos negros sobre teus pés, o arrepio de quem ouve um grito. Não havia movimento, não pronunciaste Deus, minha menina Jesus da escola primária.
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