
Era um esticado de tempo que eu não retornava à cidade. As casas quase as mesmas, ruas mais estreitas, um abandono aqui, um ajeitado acolá.
A noite com um ar envelhecido, o rio parado, as lâmpadas ainda amarelas. De andanças, reencontrei o parceiro de infância. Sentamos na taberna, olhando a chuva que se avizinhava, cheios de memórias.
— Nossa cidade tem histórias, Zé!
— Histórias e coisas estranhas. Mas esse tempo das estranhezas parece ter ficado no passado. Você se lembra de tudo o que contavam?
Tivemos o caso do homem de cauda. Esse andava cheio de lamentos, em noites escuras, dizem.
Vez ou outra alguém reconta o caso do enterro do seu Comêncio, que foi desenterrado e revivo pelas amantes que choraram até ele reabrir os olhos. Contam, também, que havia aqui um pescador muito bonito. Ele encantava os peixes e os pescava com o azulado dos olhos. E o Seu Saturnino?! Era um pastor de cabras invisíveis. Ele as contava em mais de cem e as conduzia pelas ruas de pedras. Havia quem jurava ouvir a pisada dos cascos e os chocalhos.
Você se recorda do que diziam da lavoura de cana do seu Domingos? Um dia o canavial amanheceu chorando e, à noite, se transformou numa procissão de lamparinas.
E lá na baixa do papagaio?! Falavam de uma igreja sem portas, sem luz e com um sino que tocava todo santo dia às seis horas da tarde. Nunca nenhum de nós viu nem ouviu. A igreja foi arrebatada. Isso foi na antiguidade. Os mais velhos heresiam até que essa história merecia um lugar na Bíblia.
Lá no lajedo abandonado, perto do cortiço onde se ouve choros de bois, havia cobras que cantavam.
E tem as estranhezas do homem rosa com um par de asas, e da mulher que aparecia no cais, com peixes pregados por todo o corpo.
Mas agora, aqui é uma aldeia de calmaria, parece mesmo que estamos andando ao contrário. A única história ainda viva é essa que falam do Chico.
— Só me lembro do Chico da dona Rita.
Esse mesmo. Se meteu dentro de casa pra nunca mais sair. Só se vê a sombra dele por aquela meia janela da casa, lá na Aviador.
O homem enlouqueceu, entristeceu, ficou mudo.
— Mas logo o Chico que tinha uma fala de encantar até o silêncio.
— Os pais já se foram. Hoje somente a Índia, que foi criada na casa, é quem mora e sabe tudo dele. Mas guarda silêncio, não dá conta a ninguém.
O que sabemos é o da boca do povo. Chico descia o caminho de toda noite. Mulherengo, farrista, metido a amores e encrencas, tinha pernas pra cidade alta, pra cidade baixa.
Chegava a casa sempre pela porta dos fundos.
Certa noite, dizem, passou debaixo do , ouviu um assobio, enxergou uma mulher acocorada num galho alto, chamava por ele, estendendo os braços.
Chico quase cai, mas se desenfeitiçou a tempo, enfrentou a , ralhou que ela sumisse.
A mulher deu uma gargalhada, fez umas imprecações e voou do jatobazeiro pra dentro do nada.
Foi desde então que o pobre não saiu mais de casa. Tornou-se aquela sombra da janela.
Quem primeiro falou essa história, deu conta de que Chico, ao acordar no dia seguinte, entrou em desespero ao tombar no primeiro passo. Foi amaldiçoado. Aquela esconjuração lhe tinha deixado com os pés ao contrário.
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