Pequena biografia de um pescador

Das histórias que eu sei sobre a luz

Pequena biografia de um pescador

Nascido à beira do rio das luas frias, crescido numa das casas que tinham pernas fincadas nas águas, no tempo em que pequenas montanhas se viravam para as margens e se desfaziam nos invernos. Foi aprendiz do avô, homem que criava abelhas e cultivava plantas de rezas, penduradas nos beirais. Aprendeu dele as essências para não ser triste.

Antes dos anos da juventude já reunia conselhos. Sabia a importância do estrume para a fortaleza das plantas; aprendeu que a vagareza nos olhos traz mais aprendizado que ouvir palavras; dava importância para o cheio, guardou que a chuva faz uma parede mole, que às vezes encanta.

Quando o avô morreu, chorou pelo tempo que enxergou as abelhas se amontoando numa nuvem negra para dentro do nada. Elas choravam a melodia de um trovão macio.

Com o tempo, começou a dar importância aos abandonos. Se adivinhava um pequeno camaleão, imóvel sobre a pedra, meditava aquele verde desocupado de movimento. Era como se o cheio transbordasse o vazio.

Deu de decorar a solidão das ideias que apanhava com os ouvidos, com o fechar de olhos, e as que lhe chegavam dos desprofundos. Inventou um clareador de entendimentos, um desamassador de lampejos, atinou que, mesmo coisas impegáveis devem ser envolvidas de luz. Dominou o sossego das liberdades, os contornos das imagens, a vastidão das visões pequenas.

Uma noite, a chuva era fina, sentou-se na ponte à beira do rio, riscava a água com os pés, fazia um redemoinho, se perguntava: se nos pensamentos de seus pais haveria a espera por uma estrela da manhã, se sabiam a explicação para a geografia das sombras, se meditavam, pela música, a escuridão oca dos ninhos, a chuva sempre bonita.

Ainda, se lhes incomodavam os sentimentos vagando nas folhas verdes, se sabiam por que os cheiros das ausências voam sempre para o lado de dentro; por que é sempre mais vistosa a plantação que ninguém plantou, se ouviam do silêncio a descrição de paisagens desconhecidas, se seus olhos também eram solitários e mudos.

Abriu as mãos para a chuva e perguntou para si mesmo, como é o rosto de minha mãe? Como são os pensamentos de meu pai?

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