
Sentaram-se a mãe, os quatro filhos. Comida pouca. Acostumaram-se a viver sem reclamações. Repartiram o feijão, o caldo, um pedaço de carne.
O olhar da mãe perguntava o já sabido. Era sexta-feira.
Da lida de cortar a cana, os dedos se moíam. Não ia se demorar, avisou Matias. Uma ida à estância, uns goles com os amigos e o descanso para o sábado de feira. Promessa que comumente o bonito e cativante filho não cumpria.
Galileu sempre alvoroçado se arrumava para a casa do Arigó. O nordestino se instalou por cá, trouxe uma casa de festa, a diversão das sextas.
Tomé o jogador, o cabeça de vento, a sinuca até pelas madrugadas, tinha por parceiro um tal valente João. No final, ali se reuniam os irmãos.
O caçula José, aprisionado pela cegueira do amor, desceria a cidade baixa, desconhecendo os perigos que espreitam os encegueirados.
— Cuidado, filho, essa gente por aqui não põe bons olhos aos criados por mãe só. Com as mesmas asas que os acolho, quisera eu vigiar os caminhos.
Deu a benção e os dizeres de sempre. Botou preocupação nas intenções de cada um.
— Olhem essa mão. Somos nós os cinco dedos. Não saberei viver se um me falte.
— Mamãe, nós sempre voltamos juntos.
A noite andou, um desassossego engoliu o sono, uma estranheza trazia arrepios. Da janela do quarto avistou ao longe frágeis raios no céu, a escuridão se retorcia.
Vigiou pela casa, deitou-se de cama em cama, assentiu-lhes o cheiro, esticou os lençóis.
De súbito, nasceu-lhe num choro, o desejo de ver, naquele instante, o rosto dos quatro.
De frases em voz, firmou-se uma: Filhos, cuidem lá que o coração de mamãe não é eterno.
Ainda assim ele os amará por mais que mil gerações.
Voltou ao quarto, ia deitar-se, ouviu os amados em coro a lhe chamarem: — Mamãe?!
Saltou no rumo da porta da frente, nem abriu folha inteira, um trovão de vozes, assustadas e infantis, atropelou a luz, a ponto de não lhe aparecer a sombra de um.
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