Amor em carta aberta
relembrando Fernando Pessoa
Meu amor venho em carta aberta, dizer o seguinte: de ti vi nascer a paz! Crescer árvores nos baldios das minhas solidões onde pássaros chilreiam e anunciam o sol e a chuva ao deserto. Tua chegada trouxe o projecto de uma casa com dois cómodos apinhados de livros, um pomar de rica sombra e nossos netos de todas as cores, a treparem pelas nossas bengalas e cadeiras de verga balanceando com seus choros e fraldas molhadas; De ti recebi o amor, verdadeiro de mais, para se esbanjar pela cercania da mágoas. Hoje enquanto o céu caía sobre mim, da chuva das tuas lágrimas compreendi a imperfeição da minha alma! E o que me levou a desentender o percurso de nós. Vejo que o abismo pode estar onde menos se espera, até, imagina, na esquina desta entrega que nos parecia ser capaz de superar todas as crateras e enfrentar as trevas ... quanta crueldade! Enfim, este adiamento ao nosso reencontro e aos nossos corações, talvez traga maior maturidade e aceitação da vida com a serenidade das coisas simples: Somente!
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Espigas do Sahel
Espigas espigas brotam do Sahel pioneiras da liberdade a caminhar sem cautela pela floresta carregada de espinhos Pessoas pessoas cruzam o meu caminho penetram lentas e vagarosas como térmitas na sala de interrogatórios descubro o travo da traição Prefiro as hienas e os lobos que uivam constantes todos sabem donde e onde estão Do ventre do bosque ainda que faça silêncio imaginam meu pensamento ainda que cerre os dentes e digo não penso há gente que diz: mente Não falo não penso oh gente da terra quantas vezes ofereceis malavu sem provar
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Herança de morte
Lírios em mãos de carrascos Pombal à porta de ladrões Filho de mulher à boca do lixo Feridas gangrenadas sobre pontes quebradas Assim construímos África nos cursos de herança e morte Quando a crosta romper os beiços da terra O vento ditará a sentença aos deserdados Um feixe de luz constante na paginação da história Cada ser um dever e um direito Na voz ferida todos os abismos deglutidos pela esperança
Amélia Dalomba
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