O Cafofo e suas memórias acumuladas.
Achei uma moeda de cinco cruzados sobre a escrivaninha do Cafofo. Guardei. Dia desses, encontrei outras coisas: dois dados. Couberam na caixinha com a moeda. Daqui a alguns anos, vou encontrá-la e me perguntar: “Por que não a joguei no lixo?”
Confessei, neste espaço, que não sou um colecionador de coisas organizadas. Usei como exemplo os cinco presépios que estão enfiados em algum lugar por aí. As quinquilharias se acumulam. Há algum tempo, caminhando pelas ruas do Brás em São Paulo, desviando da multidão, encontrei, no chão, um pingente ordinário. Guardei. É uma “gota” e está em bom estado. Falta a corrente. Pensei em usá-lo em uma pintura. Colaria o achado, como uma pista ao observador.
Nas minhas férias do ano passado, na Praia dos Carneiros, madrugada ainda, frente à Capela de São Benedito, observei os noivos fazendo fotos com o entorno vazio. Fugiam da maré alta e de dezenas de turistas que viriam para as selfies. Aproveitei para fazer boas fotos. Imaginei-me no Cafofo, pincéis em punho, frente à tela branca. Peguei quatro conchinhas e coloquei no bolso. A intenção era colocá-las no quadro usando a técnica da colagem. Agora estão aqui na minha frente. Encontrei quando fui guardar a caixinha com os dados e a moeda.
Mais uma. Há quase vinte anos vim para São Paulo trabalhar. Nos restaurantes, inventava uma história dizendo que não era da cidade e se tinham algum souvenir para me dar. O mais inusitado foi o do Mexilhão, no Bixiga. O garçom pensou e me deu o saleiro que estava sobre a mesa.
— Pode levar?
— Pode, não tem problema, não.
Preocupei-me: “E se for barrado ao sair, acusado de roubar a peça?” “Mais um cleptomaníaco”, diriam. E seria levado à delegacia para explicações. Sem dizer que, como desgraça pouca é bobagem, o garçom já estaria longe pela troca do turno. Não haveria ninguém para corroborar a minha história. Mas não aconteceu e a lembrança está em algum lugar do Cafofo. Qualquer dia encontro. Talvez com o sal dentro. Opa! Ganhei o saleiro. O sal eu roubei?
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