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Tanussi Cardoso: A Fluidez do Rio e a Geometria do Destino, em cinco poemas

Tanussi Cardoso
UM RIO ou UMA VIAGEM AO ENCONTRO DO MAR

um rio é entre

o peso e as margens

bicho que acena sua morte

entre as grades

pelos musgos lamas

caranguejos paisagens


um rio é entre

sombras de sol e medo

cabrais roseanos

cruzes e epitáfios


entre

peixes e barcos

memórias e viagens

susto de cobras

árvores voando

gemidos de afogados


um rio é entre

o que se procura

e o que se não acha

escombros tesouros piratas

nus de humanos ossos

cabides de deuses e iaras

araras

cantar de lavadeiras

um rio é entre

o destino e a dúvida de rio

os bois e os homens

enforcados

o sal e o silêncio

o deserto e a chuva ácida


entre

a maciez do sonho

e do esgoto

a ternura e a cura

Kamakura

e o luar de Kyoto


um rio

move-se

desloca-se

desnuda-se entre


amante dividido

diariamente

entre o mar

e o próprio ventre

LINGUAGEM

eis o amor


flor enjaulada

pedra em sua textura

forjada


palavra cítrica

que lodo

em enganos se expira


sede

de sal

em suas linhas


rio sem peixes

em seu escamoso

enfeite


folha da folha

que dos ramos

se descola


e enredo

se faz pluma

peso e avesso


mais que água

poço

mais que poço

fundo

mais que fundo

frio

mais que frio

medo


eis

o amor


tiro que cala

e sintaxe

mata o que dispara


mais pássaro que voo

mais telhado que teto

mais rede que sombra

mais crinas que cavalos

mais galos que auroras

mais fome que romãs

mais pomar que amoras


eis

o amor


íntimo áspero devoto

missa de remorsos

ressoa em sua

solidão de ossos

ORÁCULO

mas não quero falar disso agora.

preciso modular minha FM preferida.

acertar minhas ondas hertzianas. jogar meus vídeos.

ver minha TV desfocada.

terminar meu quadro imaginário.

pensar palavras nunca escritas.

ser inteligente. admirável. bonito. de olhos espertos. galantes.

ouvir marvin gaye em CD.

ceder às minhas idiossincrasias. polissemias. hipérboles. agonias.

curtir meus deuses injustos. meus canibais preferidos.

minhas chuvas de abril. meu rock sem sexandrugs.

minhas vertigens. delírios. minhas camas desfeitas.

meus uis. ais. meus apótemas. me perguntar o que é apótema.

fazer teses de gaveta. construir teias. telas. estratagemas. gemas.


mas não quero falar disso agora.

entenda. pegar meu barco à vela. meu travesseiro. meu lexotan. minha incoerência.

eu X o tempo.

eu questionário incorrigível.

eu X eu – matemática imponderável.

preciso de um céu imprevisível.

uma morte não anunciada.

um sofrimento exato e incontrolável.

um mar. viajar em sereias e trepar com deusas insensatas.

não ter medo de deus. não ter medo de adeus. não ter medo de.

veludos azuis. abajur vermelho. tangos e boleros. facas agudas.

samambaias penduradas na sala de jantar.

mortos passeando nos jardins. um filme de mojica marins.


mas não quero falar disso agora.

tantas idas e vindas. dor no coração fodido.

voo e nem acredito. voo e nem domingo.

sábado e nem comigo. voo e nem futuro.


só preciso disso:

a paz inalcançável do gesto da mão no ar no vento

como um corte lento e gosmento.

silencioso. brutalmente silencioso.

como um poema. límpido como um santo caído das nuvens.

como um poema. gênesis.

como um poema. estupidamente triste.

como um poema. sutil e inacabado.

como um poema. belo e qualquer.


mas

não quero falar disso agora.

BALADA DE MORRER

ser sintético

não usar 2 pontos

nem adjetivos

muito menos reticências – eis a retórica da vida.

ou do poema?

marioswaldianamente reter o passado

o andamento dos carros

o voo dos aviões

o pó contido no sangue

a agulha cósmica da aids

o veneno explícito do amor

grito curtido contido num poema futurível

contaminado e previsível.

ai, amor, por quê?


a possibilidade ilimitada do dia

dos tarôs da sorte dos sonhos

a geometria do destino

os dentes da serpente

o germe infinito da poesia

os caminhos da ternura e da paixão

a claridade azul da morte

a música a música a música das ruas

dos meninos ensanguentados

dos meninos que roubam

das mãos em cruz

da oração de descrença no rito do universo

ai, amor, por quê?

como um pescador da Verdade vê o Santo andando nos mares

o poema me diz que sou e me pergunto por mim e por Deus

e vomito o último álcool grudado na pele e corpo

e desmaio como uma noiva desmaia em maio

e me despeço numa carta nunca lida

carregando flores que enterro em chãos desertos

e não sinto dor horror ou agonia

e nunca digo nada porque nada sei e sempre digo tudo porque sei

que vou

morrer

vivo e comigo e triste e contigo e alegre e bem-vindo.

ai, amor, por quê?

O GESTO INCONSÚTIL

O eclipse da Lua despedaçando-se nas vidraças.

O olho se escondendo no terceiro olho do guru da Índia.

As estrelas que nascem no peito e não nos ensinam como comê-las.


A infância, dissolvida na neblina.


No casarão do Cachambi,

mamoeiros, mangueiras e morcegos

voam, nos cabelos e arrepios.


Os fantasmas dos porões

arrastam-se nos medos.

O vento uiva nas janelas.


O sexo, no quarto ao lado, onde nasci homem.

O sexo encardido dos meninos descobrindo-se nos lençóis.


Eu, de joelhos, e as velas acesas na culpa da igreja.


O samba, a Carmen, a Aracy e o tango vermelho do pai rodopiam

entre ternos cortados, saias rasgadas, chapéus-panamá, saltos altos e coxas.


O sol no jardim, que a catarata do pai não vê mais.


A bicicleta do E.T. voando pelos ares: liberdade.

A noviça cantando nas montanhas: liberdade.

Las aves que anuncian las flores de Sara.

Johnny Guitar morrendo por amor.

E Deus criando o pecado chamado Bardot.


A lâmpada lilás do sexo barato das gonorreias.


O abismo que é abismar-se com o abismo e as maravilhas da Arte.

O rio da poesia que corre não sei pra onde e sempre é menor que o Tejo.

As pernas dos homens e mulheres subindo e descendo bondes de Drummond.

A poesia, o poema, a palavra, o verbo, o verso, a fala: a ponte.


A loucura da irmã, a loucura de Torquato, a loucura de Sérgio com seu bloco na rua, a loucura da Aids, a loucura drogada e o furacão de corpos nas valas.


A mãe jogada no futuro das rugas dos cabelos: memória de retrato em branco e preto.

Quase corpo: esquecimento.


O afogamento sem água, a inútil gilete sem corte, o umbigo que nunca se livrou do nó.

A faca na carne que sangra mais do que pode uma dor, na partida do amigo.

O choro o choro o choro o choro o choro, que é pra sempre e nunca mais.


A primeira morte, a segunda morte, a terceira morte, a morte de tudo que renasce todos os dias.

A vida.

Tanussi Cardoso

Foto do autor

TANUSSI CARDOSO é poeta e contista premiado, nacional e internacionalmente, com poemas traduzidos para vários idiomas. Tradutor, jornalista, letrista de MPB e Bacharel em Direito. Tem 16 livros de poemas publicados, sendo 13 no Brasil e 3 no exterior.

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