você, caro leitor
deverá entender que para a poesia
não existe inspiração
o que existe é referência
inspiração acontece fora da vida
e para aqueles que têm dinheiro
e esgotam seus desejos
referência
surge da fome ao logro
do nada
ao instante de fugir
vem do que resta
à repetição do que não muda
a referência, caro leitor
é o ato fecundo da inspiração
dita em poucas linhas
obedecendo os limites da página
se há o desejo pela escrita
como assim tem sido por séculos
é porque se foi ingênuo
ao pensar que o amor
é para todos
e continua até hoje
obscuro pela literatura
pois o amor
assim como a inspiração
é um produto subsidiado por deus
a referência é sagrada quando sangra
e isso não se discute durante o almoço
é nobre ficar em silêncio
à espera da melancolia
que nos levará cedo para o quarto
a inspiração, caro leitor
é uma vitrine rodoviária
à vista de curiosos
com cantos de ambulância
anunciando que
mais uma estrela caiu na terra
na tentativa de atravessar o sinal fechado
veja
caro leitor
a distinção é clara
inspiração
é o desejo de mudar as coisas
referência
é o erro
minha avó habituou-se
às batidas dos corações
de seus seis filhos e esposo
como um burro de carga
em uma estrada esburacada
a eles
ela nunca deu nomes
os tratava como frutas maciças
minha avó tinha essa habilidade
de manter todos equilibrados
um em cima do outro
na pequena carroça
um dia
uma de suas frutas rolou pelo chão
e minha avó
chamou-lhe pelo nome
querida edith
recebi sua sopa
foi suficiente para manter o estômago aquecido
agora — me cabe no pensamento
assistir o presente
que se perde à vista de um adeus
da mesma forma
que se perde o medo de se machucar
o cheiro do alho muito me agrada — disso você sabe
às vezes fico soprando devagar
o hálito quente na direção do nariz
como se libertasse do exílio uma papoula
edith, querida edith
os canhões estão apontados para nós
por corpos silenciados de espírito
então não se aflija
se não mais receber notícias minhas
e prometo neste pacto
que não ficarei triste
se não obtiver resposta
o fascismo, querida
é a miséria da moral na ausência da salvação
que nos enterra aos poucos
feito cada colher de sopa levada à boca
por isso as papoulas, querida
por isso as papoulas
se fosse para falar sobre as galinhas
diria que são como
o céu de teerã
e se fosse para revisar
meu pensamento a respeito
diria que uma parte
do céu desabou sobre as pessoas
que dormiam, fugiam e jogavam bola
se fosse para dizer alguma coisa
pegaria o galo
sob o céu armado
no final do dia
e o protegeria para sempre
mas sempre que fosse
cinco e meia da manhã
o deixaria cantar exacerbadamente
até que todos pudessem acordar
Andreev Veiga
