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“Cabelos negros” – Um conto de Edileuza Coelho de Oliveira

Cabelos Negros

Ilustração poética para o conto Cabelos Negros

A caixinha de música embalava o móbile de peixinhos acima do berço, lançando notas de ninar sobre duendes e fadinhas que compunham a decoração do quarto de Maíra, que nasceria breve. Nas gavetas da cômoda branca, roupinhas com cheirinho de neném aguardavam, dobradinhas, a bebê que vestiriam. E o berço de riscas coloridas, ornado com bichinhos de pelúcia, já parecia aconchegar Maíra. Teria as mãozinhas de dedinhos longos ou curtos….? Como seria o rostinho….? E os cabelos…? Ah…os cabelos…seriam negros como os do pai, ou louros como os da mãe…? (Tiaras e laçarotes multicoloridos guardados na caixinha coberta com papel camurça cor-de-rosa).

O quarto do bebê era o local que ficava a maior parte do tempo desde que engravidara: tivera uma gravidez de alto risco, precisou ficar de repouso absoluto. Então permanecia no quarto da neném, lá “sentia” a filha. Tentava intuitivamente protegê-la de qualquer mal, de qualquer emboscada do destino. Quando as contrações dobraram-na em dor, chegou ao hospital decidida pelo parto normal. E, assim, de cócoras, mordendo a mão do marido, Rachel, exaurida, sofreu as dores do parto. E quando Maíra nasceu envolta em muco e sangue, a primeira visão da mãe foram os cabelos negros da filha! Sim, eram negros os cabelos de Maíra! De ébano! Sua bebê tinha os cabelos de ébano! E a neném foi envolvida em carneirinhos bordados em lã cor rosa. Era perfeita…? Tinha todos os dedinhos…? Tomada de um amor avassalador, e o corpo em alerta instintivo, Rachel aninhou a filha ao colo após ouví-la chorar, despertando os pulmões e o destino. Diluído em sensações encandeadas, Artur, o marido, tomou nos braços a primogênita e chorou baixinho. Lá fora, agourento, um sino badalava.

Enquanto o fio Rosa em Maíra desenrolava-se, Rachel, imersa em leite e cuidados exagerados, desfazia-se em vigilia: a fralda era verificada de vinte em vinte minutos; a respiração e os batimentos cardíacos, monitorados; e o pediatra era acionado, desnecessariamente, à menor oscilação de temperatura. Rachel foi sufocando a criança e a todos. Aos poucos foi desenvolvendo neurose. Tudo, tudo era a menina. A família, de início, considerou o comportamento de Rachel normal, mas a super proteção à filha tomou proporções patológicas: proibiu visitas, dispensou a babá, e não confiava que o marido tomasse a filha nos braços, argumentando que “a coluna poderia partir”, “o pescoçinho ficar com torcicolo”…! Artur passou a dormir em outro quarto, pois a cada movimento seu, a criança poderia “acordar”, “estressar-se”.

Preocupado com a esposa, mas encantado com a filha, também ignorou os sinais claros da neurose em Rachel e não procurou tratamento à esposa. Com Maíra aconchegada ao colo, de forma simbiótica, a mãe só falava a língua das entranhas. Na gaiola de riscas coloridas, Maíra não conseguia alçar voo. Os bichinhos de pelúcia amargaram em outro quarto a solidão à menina. Ao fundo, o sino agourento badalava.

Quando o verão chegou com a revoada das andorinhas, Maíra, com lindas madeixas negras contrastando com a pele de neve, sorria pouco com seus três aninhos atrelados aos tormentos dos pais: Rachel, obcecada em protegê-la de tudo e de todos, vestia pálpebras roxas pelas noites mal dormidas; Artur, escoando-se em mágoas silenciosas, amava-as em silêncio e à distância. Onde estavam os três que ontem dormiam ninados pelo anjinho da caixinha de música..? A separação foi inevitável. Rachel, entorpecida pelo amor à Maíra, não vira o traço pesado que dera ao casamento. Acreditava que sua relação com a filha era intocável. Insana, afogara a família em seu amor doentio. Maíra, para quem tudo convergiu, chorou a ausência do pai e retroalimentou o amor possessivo da mãe, ao crescer dependente e egoísta. O sino sempre badalando.

As alegrias e as mágoas intercalaram-se entre balõezinhos rosa e tudo que coube entre um pôr-do-sol e outro, as vidas de Maíra e os pais seguiram o curso delineado pelas agruras e acertos em cada um. Como era possível que, em meio a tanto amor, todos se tivesem perdido. ..? Os sorrisos minguaram, as flores murcharam, o doce amargou. E assim, quando Artur, após uma queda de braço exaustiva com Rachel, convenceu-a levá-las a um passeio de barco, o sol irradiou o mar e a tez branca da menina. Mas todo instante pode ser traído: de repente, um barulho estranho partiu do motor, levando Artur à inspeção; e Rachel à aflição. Labaredas imensas subiram do motor e Rachel pulou na água com a filha ao colo. Uma explosão espalhou pedaços do barco envoltos em chamas e em morte. Artur estava morto! Em choque, Raquel não conseguiu pensar, nadou com Maíra presa ao pescoço.

Nadou…nadou…Cansada e com cãimbra, só via água à sua frente. O mar parecia ter-se estendido até o fim do mundo! Nadou..nadou…nadou…E quando viu a praia, arrancou força das entranhas e continuou nadando. Maíra estava tão pesada…Conseguiria…? Chegaria à praia…? Sim, chegaria, “tinha” que chegar. Exausta e com os pulmões arrebentados de água salgada, Rachel cuspiu sangue e tentou boiar a filha, mas a menina, que não sabia nadar, agarrou-se mais forte à mãe. Rachel continuou nadando. Afundaram. Submergiram. Afundaram. Submergiram. Afundaram. Submergiram.

A mãe não aguentava mais…Olhou a praia. “Sentiu” que não conseguiriam. Morreriam. Olhou para a filha. O tempo parou. As notas da caixinha de música invadiram-lhe as conchas, o útero. E todas as imagens, em flashes cronológicos passaram diante de seus olhos: o parto de cócoras, o primeiro riso, o primeiro banho, o primeiro dentinho, o primeiro aniversário, primeira boneca. Nunca mais bichinhos de pelúcia espalhados pela casa. Nunca mais vestidinhos rosa na gaveta da cômoda. Nunca mais sua voz, seu cheiro, sua saliva. Nunca mais.

O cordão umbilical cortado da maneira mais sangrenta – que língua estranha é esta que anuncia a morte! Maíra, que tinha uma relação simbiótica com Rachel, pressentiu o que aconteceria e agarrou-se ao pescoço da mãe aos gritos. Rachel pousou os olhos esbugalhados na face da filha, beijou-lhe a boca, as mãos… O rostinho Branco de Maíra aos poucos foi esfumaçando e Rachel retirou os braços da filha de seu pescoço com violência e nadou – sem olhar para trás. Nas gigantescas ondas verdes, os negros cabelos de Maíra, encresparam-se à medida em que afundaram…

Foto do autor

Edileuza Coelho de Oliveira nasceu em 06 de janeiro de 1967, em Dourados, Mato Grosso do Sul, onde viveu a infância, mudando-se depois para a Transamazônica, onde trocou as pedras de granizo por besouros. Cursou Letras e Filosofia na Universidade Federal do Pará (UFPA), é escritora, cronista e poeta, autora do livro de poemas "Arco-íris em preto e branco" e é artista plástica.

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