Desejo de Natal
Tu sabes o meu nome. Sou aquela menina da segunda carteira na primeira fila da escola, a que tem uma trança castanha e usa uns óculos grandes que na verdade me ajudam a ver melhor as coisas pequenas. Como as letras.
Estou a aprender a escrever e quero praticar muito porque quando for crescida quero ser escritora.
A minha mãe prometeu que me daria neste natal uma caneta e um caderno novos para eu escrever as histórias que andam aqui às voltas na minha cabeça e não me deixam sossegar de noite. É por causa disso que vou para a janela, às vezes de madrugada já muito tarde, e fico quieta a olhar para a estrada, para as outras janelas, para as sombras, para as coisas todas que interrompem o escuro para dizer qualquer coisa.
Às vezes uso os binóculos que ganhei no natal passado, lembras-te? Nessa altura eu ainda achava que queria ser detective, porque não tinha ainda aprendido a escrever. Mas já agora, podias ter ajudado a minha mãe a escolher uns binóculos de outra cor, tu sabes que não gosto de cor-de-rosa. Tu sabes tudo. E por falar nisso, era mesmo esta a primeira coisa que queria pedir-te: por favor ajuda a minha mãe a escolher uma caneta e um caderno que não sejam cor-de-rosa!
O que eu não percebo é como é que uma mulher daquela idade ainda gosta de cor-de-rosa. Se calhar é por isso que o meu pai lhe dá rosas sempre que discutem. Coisas estranhas que uma menina da minha idade ainda não entende, digo eu. Porque não entendo mesmo.
Mas como gosto de entender tudo, um dia perguntei ao meu pai por que dava rosas à minha mãe sempre que ralhavam muito um com o outro. Ele explicou-me que os adultos por vezes se zangam, e depois arrependem-se, e como forma de pedir desculpa, oferecem flores. Como se a boca não soubesse fazer isso, pedir desculpa. Os adultos complicam mesmo.
Mas sempre houve outras coisas que não entendo. Por exemplo, não entendo por que é que a minha vizinha do segundo andar do prédio em frente passa tanto tempo a chorar à janela, de cigarro na mão, a tremer muito. É uma senhora muito bonita. Diferente de todas as senhoras que eu conheço. Tem o cabelo muito louro, e os olhos muito azuis, mas parece estar sempre a olhar para um buraco muito fundo e negro cheio de bruxas e criaturas monstruosas como aquelas que aparecem nas histórias do Harry Potter e das Crónicas de Nárnia. Não ainda não li os livros, pois claro, mas já estão na minha estante à espera de mim e dos meus óculos grandes de ver coisas pequenas.
Apesar de ser uma senhora crescida, às vezes parece uma criança assustada, com um detalhe a estragar esta comparação tonta: as crianças não fumam, pois claro. Bem, mas o que é certo, é que aquela parece ser a pessoa mais triste à face da terra.
O meu lado de detective quer muito descobrir os motivos daquela tristeza que parece um buraco negro sem fundo, como aqueles que dizem que há no universo, lá em cima, onde moram aquelas estrelas todas que vemos cá de baixo. Tenho um livro de astronomia que explica tudo. É uma coisa complicada, uma coisa daquelas que parece mesmo coisa de adultos, mas para simplificar vamos dizer que é um lugar escuro onde o tempo pára e o espaço deixa de existir. Também não entendo por que é que o menino crescido que mora no prédio mesmo ao lado se senta nas escadas todos os dias, quando chega da escola, antes de ir para casa. Parece estar sempre a medir a decisão de ir ou de ficar. Às vezes baixa os olhos e leva as mãos à cabeça, como se tivesse coisas para pensar mas elas não conseguissem arrumar-se todas dentro dos limites da sua caixa craniana – encontrei este nome num livro sobre o corpo humano. O menino às vezes chora, que eu já vi. E eu pergunto-me por que há-de chorar um menino daqueles que parece não ter idade para ter preocupações. Também não entendo por que é que há tantas coisas feias no mundo, como a guerra. E crianças que têm fome e frio, e que ficam sem os pais e que não têm casa. Às vezes vejo na televisão e fico sem perceber nada. O não perceber às vezes faz-me arder os olhos, não sei explicar bem. Mas sinto que vai saltar deles qualquer coisa que vem de dentro de mim, muito fundo, como se eu fosse uma pistola pronta a disparar qualquer coisa que me faz sentir muito triste. Outra comparação tonta, porque eu não gosto nada de pistolas, já percebi que só servem para fazer mal. Nesta parte das coisas que me intrigam, o que eu não entendo é porque é alguém inventou algo assim. Bem, mas estou a desviar-me do assunto, desculpa. Vamos ao que interessa, o meu desejo de natal. Então é assim: o que eu queria era ser ainda mais pequena, como o meu primo Francisco, que tem 3 anos, e acredita que a minha tia consegue ressuscitar o peixinho do seu aquário com uma massagem cardíaca ou curar as asas dos pássaros com fita-cola. Isso é que eu queria, ser assim pequena, não crescer por dentro. Acreditar que estou mesmo a falar contigo, e que tu me ouves mesmo, que isto não é só um exercício para aliviar o ardor dos olhos. Mas ao mesmo tempo, queria saber escrever, percebes? Para poder dizer coisas sobre o riso das árvores e a linguagem das folhas. Para falar de coisas inventadas mas acreditar mesmo que elas são assim. E não ter dúvidas, e não estar sempre a dizer que há coisas que não entendo. Porque isto de não entender cansa-me muito e às vezes faz-me arder os olhos. Por isso, o que eu quero neste Natal é que me devolvas o meu coração de 3 anos, mas não me tires isto tão bom de saber escrever. Podes dar-me isso? Depois podes escrever um conto de Natal chamado “A menina do coração que não crescia” para ofereceres às pessoas grandes no próximo Natal.
«Era uma vez uma menina que cresceu e aprendeu a escrever. Mas o seu coração ficou sempre pequeno. A menina nunca chegou a saber que alguém um dia inventou pistolas a sério, que servem para matar pessoas, nem que há outras pessoas muito tristes por detrás das janelas dos prédios perdidos entre tantos prédios, com tantas outras pessoas tristes dentro. A menina só sabia da existência dos rios e das camélias do jardim da sua mãe, e que as cores delas eram tão bonitas, e que a água corrente a tocar as mãos sabia tão bem. E a menina viveu sempre assim, entre flores e rios, sem nunca descobrir o ardor que nasce nos olhos por não se entenderem as coisas tristes deste mundo.»
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