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Do seu novo livro “Caos, Cosmo”, o premiado poeta Antônio Moura nos apresenta 5 poemas

A mãO DO ARTISTA
A W. H. Auden

Entre folhas de livros, tantas,
e outras tantas folhas de plantas,

a mão do artista e a mão do
mistério buscam um acordo,

um convívio, entre suas muitas,
múltiplas folhas – pois, enquanto

a mão do artista risca com ciência
sobre o papel, o que vem a ser

Vedélia sphagneticola,
o popular bem-me-quer,

no jardim a mão do mistério
se auto elabora, fundida à

sua própria criação sem nome,
ao léu, entre chão e céu, entre

o perceptível e o imperceptível
a mão do artista e a mão do in

visível operam, em silêncio,
um concerto à duas mãos


CRONOS E KAIRÓS

Um tempo que dura
e um tempo que fulgura
O que navega lentamente
O que fulge incandescente
Ambos, presentes, no cosmo
e no caos do todo – deuses,
que estão em toda parte
da linguagem que se faz
arte – fruto que matura
à sombra de sua própria
árvore – meteoro que arde
na crina fugaz do instante.

Em opostos movimentos
faíscam a química entre
coração e pensamento,
composição de contrários
– Um, ritmo de estações
que se espera passar, uma
a uma, vagarosamente
– Outro, cavalo selvagem
que é preciso montar, zás,
na passagem, velozmente

E assim seguir adiante, diante
da falta de forma e sentido
com que vagamos nos sonhos
e tateamos a névoa do mundo,

sonâmbulos em busca do verbo
que faça a luz no universo
e nos dê, no fogo da criação,
a sensação de estar vivos

§§

ÁGRAFO

A boca sopra a palavra deuses
e milhões de mundos se iluminam
e se apagam sem ouvi-la

Da mão sai o rabisco-arabesco esperança,
linha de horizonte que mais se afasta
quanto mais se avança

No crânio ecoa a substantiva justiç,
pronúncia que não termina
em forma humana nem divina

A natureza não reconhece o que eu digo,
assim como não tenho sentidos para traduzir
seu idioma inescrito

§§

FáBULA

Entre a beleza e a maciez das flores
ele abriga sua pele áspera, rugosa,
andarilho castigado pelas intempéries,
que, em certa altura do caminho, pousa
à sombra dessa verde cabana, acolhido
por belas e generosas damas, rosas,
também munidas de espinhos – agudos,
que só acentuam suas delicadas formas
opostas ao hóspede de face deformada

Quasímodo à rejeição acostumado,
sorve no cântaro das folhas o orvalho,
vinho servido à sede com o repasto
de insetos, iguarias postas na toalha
de mesa estrelada da madrugada,
manto a envolver também o bruxedo:
príncipe feito corcunda ao nascente
e que assim segue na carruagem do sol
até os confins decadentes do ocidente

Assim o poeta, sapo no jardim, deslocado,
soa no vazio da noite, solitário, seu coaxo

***

Você pode adquirir o livro no site da editora Arribaçã

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Octaviano Joba

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