MADAME JEANNE
Fui. Fui dona do Le Coq D’Or. Não exatamente, embaixatriz. Não, nunca. Eu fugi, senhor. Fugi daquele inferno. Quem me socorreu foi o embaixador. Ele ia passando e me recolheu. Estava doente, drogada, perturbada. Ele foi bom pra mim. A mulher, não. Era uma socialite, imagina, socialite em Cayenne. Como? Sim, Caiena. Gostava de receber na Embaixada. Fui empregada, outro tipo de escrava naquela casa. Eu estava doidinha das idéias, crise de abstinência. Mas servia mesa, lavava roupa e banheiro. E ela sempre insatisfeita, me xingando. Não, imagina. Nunca fui acusada, nem suspeita. Ela simplesmente morreu. Puft, caiu durinha. Madame Jeanne nunca foi acusada. Foi uma empregada, lá, uma negra invejosa que disse, mas nada foi provado. O máximo que eu posso ter algo a ver é que eu e o Raimundo, mas ele queria ser chamado de Raymond, já estávamos namorando. Ah, ele era uma coisinha, baixinho, gordinho, não tomava banho, mas era o embaixador, né? E depois, ele que veio com gracinhas. Claro que eu provoquei. Aprendi. Aprendi sofrendo, ficando à disposição de verdadeiros animais sexuais.
Sofri, chorei, mordia os lábios de sair sangue. O Raymond foi assim, de repente, sabe? E ficamos juntos. Quem não gostou foi a preta. Acho que ela estava mirando o cara e perdeu. Foda-se. Desculpe, o palavrão. O Le Coq D’Or? Ah, foi uma oportunidade. Os gendarmes souberam de tudo. Não podia ficar aberto. O fedepê, fedepê pode, sim? Ele pagou. Até hoje tá preso, coitado. Veio a oportunidade, e nós assumimos. Nós, não, porque o Raymond não podia aparecer. O senhor não sabe o prazer que foi pisar naquele lugar maldito. Não, ia dispensar as garotas? Clarro que non. É business, meu caro. Aquelas garotas precisavam de um chicote. Foi lá que me tornei Madame Jeanne. Aprendi. Me vinguei. Durou o que tinha de durar. Não foi minha culpa. Não tive nada com aquilo. Foi coisa do Raymond. Ele mexia com pedras preciosas. Isso era dele, nada comigo. Houve um desacerto com os sócios, inclusive uma autoridade lá, sei lá. Eles tocaram fogo no Le Coq D’Or. Me chamaram umas sete da manhã. Não dava pra fazer nada. Fiquei ali assistindo. O Raymond chorou. Ele gostava de mim. Quando penso naquele gordinho em cima de mim no sexo, credo. Mas eu fui uma escrava e ele querendo transar era o mínimo.
Homem é tudo besta, desculpe, não estou falando do senhor, clarro. Basta apertar aqui e ali e ele fica satisfeito. Desculpe, escapou. Voltei para a Embaixada, me arrumei e passei a frequentar os ambientes de Cayenne, com o Raymond. Era uma Rainha de les tropiques. Ele teve um ataque. Quem? O Raymond. Também, tomava aquelas pílulas azuis de monte. E enchia a cara. Não podia dar certo. Sexo? Não tem significado pra mim. Não tenho desejo. Tenho raiva, vingança, revolta pelo que me fizeram. Ele morreu sobre mim, gozando. Quer melhor morte? Abafaram. Eu queria ficar no posto, mas sabe como é, né? O Itamarati trocou. Mas agora eu tinha dinheiro. Meu dinheiro. Viúva. O que me restava? A vingança final. Comprei esta casa. Confortável, não? Meus pais? Clarro que non. Eles me bateram, me machucaram a alma, não me acolheram. Me mandaram para o inferno. Nem sei o que é feito deles. Agora eu sou Madame Jeanne. O senhor encontrou o corpo, não foi? Na minha garagem, não? Preciso dizer mais? Já não expliquei?
Senhor gendarme, o Fenque foi o pior que tive na vida. Ele não só publicou na rede o que fizemos. Quando fui lá pedir satisfação, ele achou graça, me empurrou. Os moleques todos riram, ridicularizaram. Falaram até da minha… bom, deixa pra lá. Virei essa pessoa, ressentida do mundo. Só, absolutamente só. Só e sem alma. Ela foi roubada, estuprada, violentada e jogada fora. E o senhor vem me perguntar a razão? Primeiro esfolei todinho. Ouvia os gritos que eram abafados. Fui cortando aos poucos. Ele dizia que tinha família, que casara com a Lindomar que era também uma escrota do colégio que me sacaneou. Que tinha filhas. Que se fodam. Cortei a pica do filho da puta, foda-se os palavrões. Cortei a língua e deixei lá sofrendo. Ele morreu? Ah, sim, claro. Uma noite inteira sangrando. Que se foda. Minha vingança. O senhor vai me condenar? Já estou longe de tudo isso. Nem estou aqui. Vai pra cadeia quem tem 80 anos, vai? Pois bem. Madame Jeanne, si vou plais.
Edyr Augusto 2025
Publicado na revista Morel
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