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O Mistério do Pássaro que aprendeu a chorar – Edmir Carvalho Bezerra

Ilustração do Mistério do Pássaro que Aprendeu a Chorar

No estreito beco de não mais de uns cinquenta metros, se ladeavam casas simples de bons e alegres moradores. Os fins de semana festivos, os encontros de vizinhos… No meio de um dia que parecia igual a tantos, chegou uma pequena mudança para a única casa vazia. Poucos móveis postos para dentro, o novo morador, um homem em idade avançada, foi olhado por alguns. Era desconhecido. Nunca ninguém o viu pelo mercado, ou na igreja, no comércio, nem nas ruas dos outros três bairros.

Saiu à varanda, pendurou uma gaiola, um pássaro dentro. Sem o olhar em coisa alguma, trancou-se. Nada se ouviu, nem nada se acendeu até o fim do dia. Correram manhãs e noites com poucas aparições, umas duas ou três saídas. As paredes pintadas de sombra e ferrugem parecem ter combinado com o homem sem luz. Recolhido e de sem palavras, logo o chamaram de o homem-só. A única companhia, um sabiá. Um pássaro mudo.

Certa madrugada, todos despertaram com um canto. Não era um canto de alegria ou de chamamento, nem canto piedade. Era um canto-choro. Uma angústia, agonia, a ausência de ar tomou conta de todos. As janelas se abriram, procurando uma rajadinha de vento que fosse. O som de flauta chorosa se calou, já o dia trazendo um clarão esfumaçado num tom esverdeado nunca antes acontecido.

Foi testemunhada assim; outra noite iniciava seu desbotamento; o sabiá vermelhou seu choro, seu canto-pranto. Por longas duas horas houve um abrir e fechar de portas, um aturdimento, uma procura por alguma coisa perdida; algo havia se despregado daqueles viventes. Olhos de alarme, desesperos presos na garganta. Procura insana enquanto o choro-canto se ouvia. O pássaro-chaga-aberta chorava mais uma vez…

Passaram-se outras noites, até o sabiá novamente se aludir em canto-choro. Madrugada de chuva fina, trovões secos. Homens e mulheres acordaram aterrados, sedentos, agoniados. Cada um relatava ou se pensava sobre pesadelos tidos. Eram brigas sangrentas, quedas de abismos, fugas de labaredas de fogo, pedaços do sol se desfazendo, pessoas sendo pisoteadas por mil cavalos de ferro. Para cada morador houve um pesadelo. Estavam cansados, como se tivessem corrido mil léguas, arfavam alívios bem na hora depois que o sabiá soltou o último pio daquele proto-canto.

E depois, outra madrugada e nova flauta. Acordaram com um barulho de água. Abriram as janelas e eis que havia nascido um rio por toda a extensão da rua. Uma água turva e apressada, com peixes saltando, finas cobras atravessavam, estrelas eram arrastadas pelas corredeiras. Incrédulos, viram o rio desaparecer no repouso do pio do sabiá.

Iniciava uma noite com um vento agradável; havia calma nas luzes de cada morada. Aos poucos foram se apagando. O sabiá trouxe o princípio antes e iniciou um canto-saudade. Ocorreu uma lufada de melancolia, de banzo e lamentações. Lembravam seus mortos, como se tivessem acabado de partir. Choravam e se doíam em ais de sofrimentos; saíram à rua para se entre contar a morte dos amados. E o mais curioso era que viam seus mortos também chorando. O sabiá rasgou o véu da noite com seu pranto. Todos os olhos estavam marejados e confusos, viam apenas lampejos dos acontecimentos da madrugada.

Não era mais a rua feliz. Cismavam o pássaro silencioso durante o dia. Mais silencioso e recolhido era o homem-só. Cogitou-se uma conversa, uma visita. O homem não abria a porta; alguns comentavam nunca tê-lo visto; duvidavam até da sua existência. Certo mesmo é que o sabiá ficava o dia no engradado pendurado na varanda.

Perceberam, as madrugadas em que o pássaro chorava, eram sempre premoniadas de pequenas estranhezas. Um vento morno, ou frio, um céu de estrelas desgovernadas, noites de relâmpagos mostrando árvores no céu, lua se desmanchando. Houve noites em que aves pousaram nos telhados e piaram tristes. Outras em que cães e gatos soltavam latidos e miados para algo que só eles viam.

Houve, então, a madrugada em que um vento arrastava murmúrios. Despertaram os corpos e as almas sedentos. Não, não era sede de água. Era uma sede de luz. A manhãzinha ainda nem se espreguiçava; todos se empurraram na direção da casa do homem-só, atraídos por um estridente lamento de uma garganta sendo estilhaçada por raios. As portas e janelas desbotavam embriagadas de um cheiro de luz que a todos saciou. A gaiola chorava um vazio; o interior da casa parecia um paraíso abandonado.

Edmir Carvalho Bezerra

© 2025 Ver-O-Poema – Belém/PA

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Marcelino Roque Munine

Um lindo conto Prezado Preclaro Coordenador Edmir!

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