Natal, aonde ainda?
Natividade, 1465. Petrus Christus.
Para onde voltamos os olhos, nada nos remete à sacralidade, simbolismos e convicções profundas para o que fomos feitos. Aquilo tudo que Vinícius de Moraes no seu lindo Poema de Natal recita ser o encanto do qual seríamos compostos: “Para a esperança no milagre, para lembrar e ser lembrados, para a participação da poesia e principalmente ter tranquilidade na finitude”. Até onde a vista alcança, as celebrações tornaram-se pretexto à mercantilização da vida, o virar o rosto à saudável angústia, a recusa dos ritos e da reflexão. Uma epidemia planetária de déficit de atenção num playground de distrações para espíritos ocos. Poetas habitam a transcendência muito além das platitudes tolas.
Drummond foi certeiro nos versos do belo O que Fizeram do Natal. Por mais céticos, por sermos poetas, guardamos culturalmente um catolicismo grato à tradição das madonas, dos autos populares, a plasticidade dramática e lírica que só os devotos de Pedro e da Virgem sabem cultivar. Nenhum seguidor do Nazareno foi tão pleno aos seus preceitos quanto o santo poeta Francisco de Assis. Quando ainda busco indício de representação natalina sincera, é sobre presépios que lanço os olhos, buscando algum vestígio disso que remotamente comemoramos: o Natal do Cristo.
Quiçá aos desavisados caiba uma réstia de silêncio em meio a tanto barulho, algum espreitar o céu nebuloso em busca do que resta de intuição. Voltando a Vinícius (onde foi parar também o Brasil de Vinícius?), buscar o Natal no que é Natal todos os instantes: “Uma canção sobre um berço / Um verso, talvez, de amor / Uma prece por quem se vai / E por ela os nossos corações / se deixem, graves e simples”.
Não a falsa simplicidade dos medíocres, buscai a pureza dos siderados da magia esvaída em nome dos preconceitos. Onde a sabedoria consumida pela informação? Não faltam na literatura paradigmas do que foi o Natal vívido: a Missa do Galo, de Machado, e sua divina descoberta do mundo; a hipocrisia burguesa no Peru de Natal, de Mário de Andrade; e que pungência em A Árvore de Natal na Casa do Cristo, do mestre Dostoiévski.
Nesta deturpação do sacro sem benefício do belo profano, no lusco-fusco de Disney com Midas, pousa tua mente, caro leitor, ouvindo uma cantata de Bach, no que ainda valha a pena ser celebrado como sublime. Teu sagrado íntimo, teu sagrado inviolável, em algum paraíso recôndito do que nos sobra de alma. Os lírios do campo vicejam até sob o império dos filisteus. Recupera os frutos da terra sem que o grão morra por aridez indiferente. Temos um planeta ainda para cultivar para todos. É grande a tarefa imposta pela desigualdade que grita em cada esquina.
Tomai compromisso com um poema escrito no Natal de 1947 pelo velho Bandeira: “Vi ontem um bicho/ Na imundície do pátio/Catando comida entre os detritos. Quando achava alguma coisa/Não examinava nem cheirava: engolia com voracidade. 0 bicho não era um cão/Não era um gato/Não era um rato. O bicho, meu Deus, era um homem”.
Dar um tempo sobre o que somos, o tempo. Nem eficiência, nem meritocracia, longe de competição; pelo Natal, um tempo ao humano. Em meio a tanta virtualidade, reponha no caminho o tangível sonho, o miraculoso do visível, o inefável do infinito que passa…
Flávio Viegas Amoreira
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