O Brinco
Se acho muitas coisas, também perco outras. Na minha caminhada de sábado, madrugada ainda, algo reluzente apareceu na calçada. Sim, dei-me conta de que era uma pulseira. Toda cravada com micro pedras luminosas. Tirei uma foto e mandei para a Luciane, que estava em Águas da Prata com a Letícia.
— Olha o que eu achei! — disse orgulhoso.
A Luciane se admirou. Depois contou-me que a Letícia nem tanto. Apenas resmungou que era uma pulseirinha vagabunda. O comentário não ofuscou o brilho do meu achado. Este se juntou a outros que estão espalhados pelo Cafofo. Dependurei no braço de uma cadeirinha de madeira. Nunca disse a quem me deu, a amiga Paula, que gostei muito do presente. Recebi quando entrei para a Academia de Letras de São João da Boa Vista. No outro braço da cadeirinha está uma corrente que apareceu; agora não me lembro de onde.
Quando a Luciane chegou de viagem, corri para lhe mostrar o achado.
— Bonita! Pera, mas não é uma pulseira… é um brinco. Olha o fecho.
Quem usaria um brinco desse tamanho? — pensei. Fiquei elucubrando: em que situação o perdeu? Sempre se extrai uma história por trás de um objeto perdido. Pode ser que num embate com o namorado, esfrega daqui, esfrega de lá, o brinco se soltou e ninguém percebeu. Pior, sendo o brinco uma prova de amor, foi atirado longe ao imaginar a traição acontecida. Conjecturas, apenas. Como vou saber?
Pensando bem, achar coisas no chão indica que olho muito para baixo. Quando criança, era ao contrário. Meus pais viviam me alertando:
— Olha pro chão, menino!
Para evitar os tropeções dos caminhos desnivelados. Quando se é criança, não é o chão que nos atrai.
Fernando Dezena
São Paulo, SP, 1 de fevereiro de 2026.
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