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“O Carteiro e o Poeta” (1994) é mais que um filme – é o último suspiro de Massimo Troisi. – Leitura imperdível!

O Carteiro e o Poeta” (1994), para além de um filme, é o último gesto do ator Massimo Troisi. Enquanto seu coração fraquejava, ele transformava cada instante em poesia, cada olhar em legado. A história do carteiro Mario e Pablo Neruda esconde uma ode: um artista que teceu sua vida com os fios da arte. Filmado em Procida, onde o mar emprestava seu azul à película, o longa tornou-se seu canto do cisne. Troisi partiu um dia após o último “corta”, deixando não um fim, mas um verso infinito escrito com a luz das tardes italianas. É o que nos conta o belíssimo texto a seguir

Massimo Troisi sabia que seu coração estava por um fio. Ainda assim, adiou uma cirurgia para filmar ‘O Carteiro e o Poeta’. A cada manhã na ilha de Procida, chegava ao set pálido, com o fôlego curto, mas os olhos fixos no horizonte. Só podia trabalhar por cerca de uma hora, tempo precioso que a produção consumiu com precisão cirúrgica. As cenas mais extenuantes ficavam para o dublê — cuja semelhança era tão perfeita que, na edição final, até o diretor Michael Radford confessou não saber distinguir quem era quem. Troisi parecia saber que estava fazendo sua despedida, e que cada plano seria um testamento silencioso. No dia seguinte ao último “corta”, seu coração parou.

A história no filme é simples: Mario (Troisi) é um carteiro tímido que se aproxima de Pablo Neruda e descobre na poesia um caminho para conquistar Beatrice (Maria Grazia Cucinotta). Nos bastidores, porém, o verdadeiro drama acontecia. O cronograma foi reformulado para se ajustar à fragilidade do protagonista: primeiro as cenas sentado, depois as de pé, depois as de bicicleta — sempre dosando a energia. Enquanto o público veria um romance nascer sob o sol, no set imperava um silêncio reverente, como se todos soubessem que cada dia de trabalho poderia ser o último.

Rodado em onze semanas, com apenas uma pausa na Páscoa, o filme foi o encontro improvável de três mundos: o texto do chileno Antonio Skármeta transportado para o sul da Itália, a direção de um inglês fluente na língua, e um protagonista napolitano cuja delicadeza física contrastava com a intensidade da presença. Procida, com suas fachadas desbotadas e um mar cuja cor mudava de azul a cinza em minutos, tornou-se parte da trama. Anos depois, a praça central da ilha ganharia o nome de Troisi, como se a vila quisesse eternizar aquele verão em que realidade e ficção se fundiram.

O longa, modesto em recursos, atravessou fronteiras. Ficou quase dois anos em cartaz em Nova York, conquistou cinco indicações ao Oscar e deu a Troisi e ao produtor Mario Cecchi Gori honrarias póstumas. Seu maior prêmio, porém, não está nas estatuetas, mas na aura de despedida contida em cada fotograma, à luz de quem acreditou que uma hora de criação valia mais do que uma vida prolongada sem ela. Em ‘O Carteiro e o Poeta’, a última entrega que Mario faz não está no roteiro — é Massimo Troisi enviando, para quem quisesse receber, sua derradeira carta de amor ao cinema.”

Pesquisa e redação: Daniel de Boni

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