“O homem é um mistério.”
(Fiódor Dostoiévski)
Nada sobrevive ao tumulto das águas
quando as lágrimas talhadas exigem:
lutar,
procurar, talvez
achar.
Toda vida que pulsa no abismo
é impetuosa
— e digna.
O homem raspa o corpo no tempo.
Sangra.
Não percebe.
Segue adiante como quem mastiga pedras
para lembrar que existe mandíbula
e que a dor ainda
responde
pelo
seu nome.
Carrega restos:
— Um medo antigo,
— Uma coragem suja,
— Um silêncio que o devora.
Tudo isso lateja.
Tudo isso o incendeia
por dentro.
O homem é feito de fendas.
Nunca inteiro.
Nunca à altura do que tentou ser.
Move-se entre espelhos rachados,
recolhendo versões que o contradizem.
Cada pedaço o acusa.
Cada pedaço o salva.
Ele busca explicação
— e encontra ruídos.
Busca destino —
e tropeça em poeira.
Busca Deus
— e descobre que o eco
responde primeiro.
Mas continua.
Frágil.
Torto.
Impuro.
Resistente como um osso antigo
que se recusa a aceitar a erosão.
Ali onde outros desistem,
ele treme
— mas não cai.
O tempo o arranha,
profundamente,
até que a pele aprenda
a linguagem das cicatrizes.
E então ele vê:
a vida começa aos sessenta e cinco,
quando o medo perde metade dos dentes;
aos setenta e cinco,
torna-se poema,
porque o corpo aprende
a caligrafia das perdas
e já não se apavora
com
o
abismo.
O homem — esse desconhecido
— não se explica.
Se rompe.
Se remenda.
Se rasga para ver se brilha.
Grita para dentro
e só encontra
mais camadas
de si
mesmo
— todas erradas,
todas
necessárias.
Ele é o intervalo
entre um impulso e outro.
A rachadura onde a alma escorre.
A pergunta
que nunca aceita
resposta.
E quando, enfim,
cruza o limiar derradeiro,
percebe tarde demais:
não há essência,
apenas vértices.
Não há chegada,
apenas queda contínua
em direção ao seu interior.
O homem é isso:
um sopro lascado,
uma chama ferida,
uma tentativa que respira.
E sua última verdade
não é saber quem é
— mas
crepitar,
mesmo
assim.
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