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Amor em Carta Aberta, Espigas do Sahel e Herança de Morte – Poemas de Amélia Dalomba

Amélia Dalomba, autora dos poemas 'Amor em Carta Aberta', 'Espigas do Sahel' e 'Herança de Morte'

Amor em carta aberta

relembrando Fernando Pessoa

Meu amor
venho em carta aberta, dizer o seguinte:
de ti vi nascer a paz!
Crescer árvores nos baldios das minhas solidões onde
pássaros chilreiam e anunciam o sol e a chuva ao deserto.
Tua chegada trouxe o projecto de uma casa com dois cómodos
apinhados de livros, um pomar de rica sombra e nossos netos
de todas as cores, a treparem pelas nossas bengalas e cadeiras
de verga balanceando com seus choros e fraldas molhadas;
De ti recebi o amor, verdadeiro de mais, para se esbanjar
pela cercania da mágoas. Hoje enquanto o céu caía sobre
mim, da chuva das tuas lágrimas compreendi a imperfeição
da minha alma! E o que me levou a desentender o percurso 
de nós. Vejo que o abismo pode estar onde menos se espera,
até, imagina, na esquina desta entrega que nos parecia ser
capaz de superar todas as crateras e enfrentar as trevas ... 
quanta crueldade!
Enfim, este adiamento ao nosso reencontro e aos nossos
corações, talvez traga maior maturidade e aceitação da vida
com a serenidade das coisas simples:

Somente!
*** ♥ ***

Espigas do Sahel

Espigas
espigas brotam do Sahel
pioneiras da liberdade
a caminhar sem cautela
pela floresta carregada de espinhos

Pessoas
pessoas
cruzam o meu caminho
penetram lentas e vagarosas
como
térmitas
na sala de interrogatórios
descubro o travo da
traição

Prefiro as hienas
e os lobos
que uivam constantes
todos sabem
donde e onde estão

Do ventre do bosque
ainda que faça silêncio
imaginam meu pensamento
ainda que cerre os dentes
e digo não penso
há gente que diz: mente

Não falo
não penso
oh gente da terra quantas vezes
ofereceis
malavu sem provar
~ ♦ ~

Herança de morte

Lírios em mãos de carrascos
Pombal à porta de ladrões
Filho de mulher à boca do lixo
Feridas gangrenadas sobre pontes quebradas
Assim construímos África nos cursos de herança e morte
Quando a crosta romper os beiços da terra
O vento ditará a sentença aos deserdados
Um feixe de luz constante na paginação da história
Cada ser um dever e um direito

Na voz ferida todos os abismos deglutidos pela esperança

Foto do autor

Amélia Dalomba, nome literário de Maria Amélia Gomes Barros da Lomba do Amaral. A poeta e prosadora nasceu em 23 de novembro de 1961, na província de Cabinda, em Angola. Publicou artigos e poemas em revistas e jornais e participou em CDs musicais, com letras e músicas. Estudou Psicologia Geral e desenvolveu atividade profissional na área do Jornalismo, nomeadamente o jornalismo radiofônico e de imprensa. É colaboradora do Jornal de Angola, tendo publicado alguns dos seus textos poéticos na sua página cultural. Integrando a geração de 80, denominada pelo crítico e poeta Luís Kandjimbo como a "Geração das incertezas", ao lado de nomes como Ana Paula Tavares, Ana de Santana, Lisa Castel, entre outros, Amélia Dalomba é uma das vozes femininas do universo literário, cujo contributo se reveste de grande importância para a poesia angolana.

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