Incognoscível
e gostamos da chuva
e gostamos do fogo
e devemos à terra
a segura gravitação
no ar que respiramos
desde a longínqua
solidificação da carne
em ser, primata nos gestos
mas humano desde os princípios
dos olhares que percorreram
os dias de chuva
os incêndios da floresta
as distâncias até os mares
sentindo no ar o perfume
da vida, algo que jamais
compreenderemos
Reminiscências do Além
vejo a infância passar
em uma tela grande:
isso me desgosta
tempos de viver aturdido
a aprender medos e mentiras
horrores das mortes e males
distinções cobertas
por preconceitos e ordens:
o que pensar
para onde ir
o que não fazer
para o dever ser cumprido
sinto-me velho sem perceber
que a memória transformou
as datas em imagens descobertas
como novas, sem que elas
tragam para mim qualquer
alegria de tê-las guardadas
como retratos manipulados
pela computação gráfica
sou agora o que sou
sendo o que nós somos
porém numa só linha
a se desfiar
mirando com meus pares
todos os abismos
que cavamos aos nossos pés
canto para o bem de minha saúde
até que minha voz se multiplique
em canções postas
em línguas desconhecidas
recupero então o além:
de ser e do vir a ser
o devir que nunca está:
o futuro me alcança
antes que eu mesmo me vá
a correr como já não faço
e assim retorno
às malditas reminiscências
embotado pelo sol da manhã
envolto em mil esferas
que tocam as notas infinitas
a se despedir do que um dia seria
se pudesse ser outra coisa
que não aquela que fomos
à beira do barranco do acaso
Medidas Incertas
à terra cabe todas as águas
às águas, todo o ar
ao ar, o fogo
às gentes, a vida
entre os elementos
e mais: o pendão de conhecê-los
como poucos, um pouco
se tanto, se cabe às gentes
o saber de todas as coisas
mas não: o pouco se alarga
se estende, e, para muitos
nunca é demais
Antes de Morrer
devo continuar
à revelia da razão
já a razão me diz
de uma maneira oculta
que é dela
que jamais me disse:
não continue
e prosseguiu:
ouviu falar muita gente
que desistiu na língua
mas não nas pernas
que seguiram a andar
e prosseguiu:
se fiou em declarações
ditas ou escritas
sem pensar antes de agir
a ação levando-as
ao fim antes do começo
do instante seguinte
que é aquele
a valer pelo infinito
devo continuar
reformulo
pois o que é a razão
para me ditar ordens?
quando ninguém pode fazê-lo
sequer eu mesmo
sempre tendente
à desobediência
de quaisquer diretrizes
devo continuar
reformulo
não porque devo
assim, tão imperativamente
mas porque talvez queira
ainda que não queira
e já não me importo
em saber o que virá
na continuação dessa série
de infortúnios pontuados
pela alegria sentida
em viver
Marcos Augusto Nunes
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