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Segunda ou Terça – Conto de Virginia Woolf

Preguiçosa e indiferente, arredando espaço de suas asas com a maior facilidade, e sabendo o caminho, a garça passa embaixo do céu por sobre a igreja. Branco e distante, absorto em si mesmo, infinitamente o céu cobre e descobre, fica e se afasta. Um lago? Apague logo sua margem! A montanha? Oh, é perfeita — dourando ao sol sua encosta. Ora desce, descai. E depois samambaias, ou penas brancas, incessantemente…

Desejando a verdade, à espera dela, destilando laboriosamente algumas palavras, desejando sem parar — (parte um grito da esquerda, depois outro à direita. Movem-se rodas que divergem. Ônibus se conglomeram em conflito) — sem parar desejando — (o relógio assevera com doze badaladas distintas que é meio-dia; escamas de ouro se desprendem da luz; crianças se embolam) — desejando eternamente a verdade. Vermelha é a cúpula; há moedas penduradas nas árvores; a fumaça se espicha pelas chaminés; clamam, berram, gritam “ferro à venda” — e a verdade?

Propagando-se até um ponto nos pés de homens e mulheres, com incrustações douradas ou negras — (Esse tempo nevoento — Açúcar? Não, obrigado — A comunidade do futuro) —, a luz do fogo se arremessa e avermelha toda a sala, exceto as figuras negras e seus brilhantes olhos, enquanto lá fora um carro descarrega, Miss Thingummy toma chá à sua mesa e casacos de pele são preservados em vidro…

Agitada, folha-luz, levada pelas esquinas, soprada por entre as rodas, salpicada de prata, em casa ou fora de casa, juntada, espalhada, derramada em separadas escamas, varrida para lá e para cá, dilacerada, deprimida, reunida — e a verdade?

Agora refazer-se ao lado do fogo no quadrado branco de mármore. Vindas de ebúrneas profundidades, palavras soltam seu negrume ao se erguer, florescem, penetram. Caído o livro; na chama, na fumaça, nas fagulhas momentâneas — ou agora viajando, o quadrado de mármore pendente, por baixo minaretes e os mares da Índia, enquanto o espaço corre azul e as estrelas cintilam — a verdade? ou, agora, satisfação com a reclusão?

Preguiçosa e indiferente a garça retorna; o céu cobre com véu suas estrelas; depois desnuda-as.

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Foto do autor

Virginia Woolf nasceu Adelina Virginia Stephen em 25 de janeiro de 1882 em Kensigton, Middlesex na Inglaterra. Seu pai, Sir Leslie Stephen, era editor, crítico e biógrafo. Cresceu cercada dos livros da grande biblioteca de casa, onde conheceu artistas e escritores, como Henry James. Em 1895, a morte inesperada da mãe a levou ao um colapso nervoso. Nove anos depois, com a morte do pai, a depressão voltou a assombrá-la. Sua fragilidade emocional a levaria a ser internada algumas vezes. Em 1904 a família passou a morar em Bloomsbury, área central de Londres. Da convivência iniciada nessa época com intelectuais e artistas, nascia o que foi conhecido como Grupo de Bloombury, e Virginia seria um de seus expoentes. Lá, conheceu Leonard Woolf, com quem se casou em 1912. Em 1917 o casal Woolf fundou a editora Hogarth Press, que viria a publicar autores como Katherine Mansfield, T.S. Eliot e E.M. Foster. Em 1915, Virginia publicou seu primeiro romance, A Viagem, seguido de Noite e dia (1919), pela editora de seu meio-irmão. Mas foi em 1922, com O quarto de Jacob, publicado na Hogarth Press, que a autora se sentiu livre das amarras do romance tradicional. O livro abriu uma série de romances que incluem Mrs. Dolloway (1925), Ao Farol (1927), Orlando (1927) – baseado na escritora Vita Sackiville-West, com quem Virginia Woolf manteve um caso amoroso – e As ondas (1931), ente outros. No ensaio Um teto todo seu (1929) que teve origem em palestras da autora, vem umas de suas mais famosas frases: “A mulher deve ter dinheiro e um teto todo seu se ela quiser escrever ficção”. Antevendo uma nova depressão, cometeu suicídio em 1941, aos 59 anos.

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