um rio é entre
o peso e as margens
bicho que acena sua morte
entre as grades
pelos musgos lamas
caranguejos paisagens
um rio é entre
sombras de sol e medo
cabrais roseanos
cruzes e epitáfios
entre
peixes e barcos
memórias e viagens
susto de cobras
árvores voando
gemidos de afogados
um rio é entre
o que se procura
e o que se não acha
escombros tesouros piratas
nus de humanos ossos
cabides de deuses e iaras
araras
cantar de lavadeiras
um rio é entre
o destino e a dúvida de rio
os bois e os homens
enforcados
o sal e o silêncio
o deserto e a chuva ácida
entre
a maciez do sonho
e do esgoto
a ternura e a cura
Kamakura
e o luar de Kyoto
um rio
move-se
desloca-se
desnuda-se entre
amante dividido
diariamente
entre o mar
e o próprio ventre
eis o amor
flor enjaulada
pedra em sua textura
forjada
palavra cítrica
que lodo
em enganos se expira
sede
de sal
em suas linhas
rio sem peixes
em seu escamoso
enfeite
folha da folha
que dos ramos
se descola
e enredo
se faz pluma
peso e avesso
mais que água
poço
mais que poço
fundo
mais que fundo
frio
mais que frio
medo
eis
o amor
tiro que cala
e sintaxe
mata o que dispara
mais pássaro que voo
mais telhado que teto
mais rede que sombra
mais crinas que cavalos
mais galos que auroras
mais fome que romãs
mais pomar que amoras
eis
o amor
íntimo áspero devoto
missa de remorsos
ressoa em sua
solidão de ossos
mas não quero falar disso agora.
preciso modular minha FM preferida.
acertar minhas ondas hertzianas. jogar meus vídeos.
ver minha TV desfocada.
terminar meu quadro imaginário.
pensar palavras nunca escritas.
ser inteligente. admirável. bonito. de olhos espertos. galantes.
ouvir marvin gaye em CD.
ceder às minhas idiossincrasias. polissemias. hipérboles. agonias.
curtir meus deuses injustos. meus canibais preferidos.
minhas chuvas de abril. meu rock sem sexandrugs.
minhas vertigens. delírios. minhas camas desfeitas.
meus uis. ais. meus apótemas. me perguntar o que é apótema.
fazer teses de gaveta. construir teias. telas. estratagemas. gemas.
mas não quero falar disso agora.
entenda. pegar meu barco à vela. meu travesseiro. meu lexotan. minha incoerência.
eu X o tempo.
eu questionário incorrigível.
eu X eu – matemática imponderável.
preciso de um céu imprevisível.
uma morte não anunciada.
um sofrimento exato e incontrolável.
um mar. viajar em sereias e trepar com deusas insensatas.
não ter medo de deus. não ter medo de adeus. não ter medo de.
veludos azuis. abajur vermelho. tangos e boleros. facas agudas.
samambaias penduradas na sala de jantar.
mortos passeando nos jardins. um filme de mojica marins.
mas não quero falar disso agora.
tantas idas e vindas. dor no coração fodido.
voo e nem acredito. voo e nem domingo.
sábado e nem comigo. voo e nem futuro.
só preciso disso:
a paz inalcançável do gesto da mão no ar no vento
como um corte lento e gosmento.
silencioso. brutalmente silencioso.
como um poema. límpido como um santo caído das nuvens.
como um poema. gênesis.
como um poema. estupidamente triste.
como um poema. sutil e inacabado.
como um poema. belo e qualquer.
mas
não quero falar disso agora.
ser sintético
não usar 2 pontos
nem adjetivos
muito menos reticências – eis a retórica da vida.
ou do poema?
marioswaldianamente reter o passado
o andamento dos carros
o voo dos aviões
o pó contido no sangue
a agulha cósmica da aids
o veneno explícito do amor
grito curtido contido num poema futurível
contaminado e previsível.
ai, amor, por quê?
a possibilidade ilimitada do dia
dos tarôs da sorte dos sonhos
a geometria do destino
os dentes da serpente
o germe infinito da poesia
os caminhos da ternura e da paixão
a claridade azul da morte
a música a música a música das ruas
dos meninos ensanguentados
dos meninos que roubam
das mãos em cruz
da oração de descrença no rito do universo
ai, amor, por quê?
como um pescador da Verdade vê o Santo andando nos mares
o poema me diz que sou e me pergunto por mim e por Deus
e vomito o último álcool grudado na pele e corpo
e desmaio como uma noiva desmaia em maio
e me despeço numa carta nunca lida
carregando flores que enterro em chãos desertos
e não sinto dor horror ou agonia
e nunca digo nada porque nada sei e sempre digo tudo porque sei
que vou
morrer
vivo e comigo e triste e contigo e alegre e bem-vindo.
ai, amor, por quê?
O eclipse da Lua despedaçando-se nas vidraças.
O olho se escondendo no terceiro olho do guru da Índia.
As estrelas que nascem no peito e não nos ensinam como comê-las.
A infância, dissolvida na neblina.
No casarão do Cachambi,
mamoeiros, mangueiras e morcegos
voam, nos cabelos e arrepios.
Os fantasmas dos porões
arrastam-se nos medos.
O vento uiva nas janelas.
O sexo, no quarto ao lado, onde nasci homem.
O sexo encardido dos meninos descobrindo-se nos lençóis.
Eu, de joelhos, e as velas acesas na culpa da igreja.
O samba, a Carmen, a Aracy e o tango vermelho do pai rodopiam
entre ternos cortados, saias rasgadas, chapéus-panamá, saltos altos e coxas.
O sol no jardim, que a catarata do pai não vê mais.
A bicicleta do E.T. voando pelos ares: liberdade.
A noviça cantando nas montanhas: liberdade.
Las aves que anuncian las flores de Sara.
Johnny Guitar morrendo por amor.
E Deus criando o pecado chamado Bardot.
A lâmpada lilás do sexo barato das gonorreias.
O abismo que é abismar-se com o abismo e as maravilhas da Arte.
O rio da poesia que corre não sei pra onde e sempre é menor que o Tejo.
As pernas dos homens e mulheres subindo e descendo bondes de Drummond.
A poesia, o poema, a palavra, o verbo, o verso, a fala: a ponte.
A loucura da irmã, a loucura de Torquato, a loucura de Sérgio com seu bloco na rua, a loucura da Aids, a loucura drogada e o furacão de corpos nas valas.
A mãe jogada no futuro das rugas dos cabelos: memória de retrato em branco e preto.
Quase corpo: esquecimento.
O afogamento sem água, a inútil gilete sem corte, o umbigo que nunca se livrou do nó.
A faca na carne que sangra mais do que pode uma dor, na partida do amigo.
O choro o choro o choro o choro o choro, que é pra sempre e nunca mais.
A primeira morte, a segunda morte, a terceira morte, a morte de tudo que renasce todos os dias.
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