“Tenho qualidades e defeitos, e uma coisa que hoje está fora de moda chamada otimismo. Espero que quando eu morrer o otimismo esteja na moda.” Zuenir Ventura, em depoimento ao MIS-RJ (2011), citado pela Folha de S.Paulo
Zuenir Ventura (1931-2026)
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A notícia chegou na terça-feira, 22 de setembro de 2026: Zuenir Ventura morreu em casa, no Rio de Janeiro, aos 95 anos, de pneumonia. Foi velado na Academia Brasileira de Letras, onde ocupava a cadeira nº 32, que antes tinha sido de Ariano Suassuna.
Zuenir era mineiro de Além Paraíba, nascido em 1º de junho de 1931. O pai era pintor de paredes e a mãe, dona de casa. Ele ajudou o pai no ofício, foi office-boy e, ainda menino, deu aulas em troca de bolsa de estudos. Chegou ao Rio para cursar Letras Neolatinas, num curso em que Manuel Bandeira estava entre os professores. Queria ser professor, e acabou sendo, do jeito dele. Nas redações por onde passou, do Correio da Manhã ao Jornal do Brasil, de O Cruzeiro e Veja à IstoÉ e ao GLOBO, o “Mestre Zu” formou gerações de repórteres.
Em 1968 foi preso pela ditadura. Daquele ano ele tirou um livro, 1968: o ano que não terminou, que virou clássico e até hoje é lido e relido por quem quer entender aquela geração, com seus sonhos e suas feridas. No Acre, acompanhou o assassinato de Chico Mendes, e a série O Acre de Chico Mendes lhe valeu os prêmios Esso e Vladimir Herzog. Em 1993, depois da chacina de Vigário Geral, subiu o morro para escutar. Dali saiu Cidade Partida, o retrato de um Rio dividido entre o asfalto e a favela, reconhecido no Prêmio Jabuti.
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Aqui no Ver-O-Poema, porém, é do cronista que a gente quer se lembrar. A partir de 30 de janeiro de 1999, e por mais de duas décadas, Zuenir conversou com os leitores do GLOBO sobre a cidade, a política, o futebol, a violência e as pequenas comédias da vida. Dizia que “o cronista trabalha muito com os olhos”, e escrevia assim, com olhos de repórter e uma doçura que nunca virou complacência. Nas mãos dele o jornalismo respirava como literatura. A frase era limpa, o humor era manso e a indignação vinha na medida certa. No centro da página havia sempre alguém de carne e osso.
Na crônica de estreia, “E o que é goiaba?”, ele tinha 67 anos, estava trocando de jornal e confessava o friozinho no estômago da mudança. De passagem, deixou uma pergunta que hoje a gente lê de outro jeito:
“Só esqueci de perguntar ao psicanalista que me ensinou isso por que então não se grita também antes de morrer? Será que o medo da vida é maior do que o da morte? Será que algum misterioso pressentimento nos avisa que nada no além pode ser pior do que o que se vive aqui, no aquém?”
Zuenir Ventura, “E o que é goiaba?”, O GLOBO, 30 de janeiro de 1999
Naquele mesmo ano de 1999, correu pela internet o boato de que Zuenir tinha morrido num acidente na Lagoa. A resposta, claro, veio em crônica. Ele riu da própria “morte”, com Brás Cubas rondando o texto, e ainda deixou uma lição de jornalismo nas entrelinhas.
“Naquele momento, eu era mais importante do que o presidente, o governador, o prefeito e quem mais estivesse lá dentro. Afinal, não é todo dia que se vê alguém morrer e ressuscitar em cinco horas. O recorde era três dias, mas fora batido há muito tempo.”
Zuenir Ventura, crônica publicada em sua coluna no GLOBO em 1999
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Desta vez, infelizmente, não tem boato para desmentir. Ficam os livros, as reportagens e as centenas de crônicas, que continuam aí para quem quiser ler. E fica o otimismo, que ele sabia fora de moda e esperava ver de volta um dia. Obrigado, Mestre Zu.
Leia as crônicas completas no GLOBO
- “E o que é goiaba?” (30/01/1999), republicada pelo Blog do Acervo do GLOBO
- A crônica sobre a falsa notícia da própria morte (1999), também republicada pelo Blog do Acervo do GLOBO
Fontes: O GLOBO, Folha de S.Paulo e CBN (22/09/2026). Os trechos citados pertencem ao autor e aos seus editores. Reproduzimos apenas pequenas passagens, com indicação da fonte, como citação e homenagem.
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