Dormir num banco de praça pública de uma cidade. Ter como travesseiro um saco preto para apoiar a cabeça e nenhuma coberta para o resto do corpo. Transeuntes estarem a passar e a visão de um corpo ser o de mais um ao relento no tempo da vida.
Ninguém sabe o nome, a história de vida, a origem… É estar entre outros corpos e ninguém notar a presença. É um corpo, apenas um corpo. Ninguém sabe o que pensa, o que sente. Se teve sonhos, se ainda têm desejos. Ninguém nota. Ninguém nota, porque a sociedade capitalista atribui valor e tempo de vida útil a objetos e pessoas. Todos, objetos e pessoas possuem tempo de vida útil. O tempo a passar desgasta peças e muitas vezes não há condições de reposição para o que desgastou ou caducou, tornando-se utensílio sem valia. A valia que é proporcionada pelo que se condiciona ao atendimento dos interesses vigentes do mundo material. Objetos quebram, objetos danificam, enferrujam, deixam de incrementar o mundo dos interesses que mobilizam a dinâmica da sociedade material. Pessoas quando chegam a alcançar o tempo de enfraquecimento das forças físicas são como os objetos avaliados pelo tempo de uso e existência. Já deu o que tinha que dar, esse é a sentença que paira nos olhares em que foi diagnosticado o “valor” do velho. O valor do que envelheceu e perdeu a importância no existir do mundo econômico-social. E assim, objetos passam a ocupar os espaços de entulhos. Pessoas vivenciando o fluxo da velhice pela idade, passam a ocupar o lugar de vivos-mortos, a invisibilidade que muitos fingem não existir.
E quando os corpos sucumbem, chegam ao derradeiro momento da existência, como muito recentemente aconteceu em um hospital da cidade, a matéria é encaminhada para os andares de baixo, lá para onde se armazenam os entulhos e também trafegam os insetos, as baratas, os ratos. Então, o que é invisibilidade mesmo? Nessa confabulação que faço sobre a temática, quando se aproxima mais uma semana de comemoração ao dia do idoso, retenho-me na percepção factual da negligência, do desrespeito, do desamor e da desumanização. O ser humano na vigência do seu envelhecimento sofre a dor da desumanização. A perda da própria identidade como sujeito de desejos a lhe assegurar um sentido para seguir a Vida.
Ana MEIRELES- Escritora e Poeta Paraense
- O que é viver a invisibilidade?

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