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MERGULHAR NO RIO DAS PALAVRAS – Uma crônica que nos convida a um mergulho, por Ana Meireles

Ela comeu o pão que o anjo mau amassou, sobreviveu a duras penas. Seu verbo vivia no recôndito das entranhas e, para liberta-lo, uma boa parte de vida galgou. Foram anos de prisão em que a palavra resfolegava e o mundo nem mensurava o quanto podiam doer palavras congeladas. Passou a escrever e esse se tornou o método que encontrou para se libertar das amarras que lhe confinavam a um universo obtuso, sem premissas de sonhos.

Não fora nada fácil, mas passou a encontrar conforto quando deitava as mãos na brancura das páginas e a caneta deslizava…As letras eram um rio ao qual aprendera a navegar sentindo crescer a necessidade de manejo nas ocasiões em que as correntezas eram tão fortes e amedrontavam, exigindo o trato equilibrado nas metáforas de navegação.

A linguagem muitas vezes podia ser comparável ao crescimento de uma onda adquirindo volume até se agigantar e se esparramar na areia quente de uma praia. Para muitos poderá representar a beleza desafiadora que encanta os praticantes de surf. Para outros, o volume aquático de um mistério insondável a causar medo. E outros: Um beijo que molha suave a superfície de um rosto. A linguagem, realmente, é objeto complexo pela inegável possibilidade de adquirir significados diversos.

E é justamente aí que acontecem os ferimentos de ordem egocêntrica, os ferimentos que atingem a intimidade do ser na sua relação com a parte desconhecida de si mesmo.

É nessas ocasiões que, numa situação de trocas verbais, aquele que costuma ser o juiz acusador é convidado a olhar para dentro de si para que estabeleça uma relação de razoabilidade e consiga sentir o outro, ocupar, ainda que indelével, a hipotética condição ocupada pelo outro. Somente desta forma, desta forma, seguindo o percurso da sensibilidade, tornando-se sensível, é que se pode tentar adentrar no espaço de domínio dos significados e significantes e as fortes ondas que caracterizam a maré polissêmica das palavras no rio tantas vezes intrafegável dos sentidos. É necessário mergulhar!

Ana MEIRELES – Poeta Paraense

***

Não sou nada. Nunca serei nada. Não posso querer ser nada. À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.
Fecha os olhos, mas falta tão pouco para o horário no qual terá de acordar, o horário no qual terá de se apresentar pronto, que a ansiedade o impede de adormecer por completo.
Poeta beat nascido em New Jersey (Estados Unidos). Allen Ginsberg (1926-1997) foi não apenas o poeta norte-americano de maior prestígio da segunda metade do século XX, como também o grande rebelde romântico e poeta-anarquista contemporâneo.
um sol desdenhoso arranha o dia: ele espia miúdo, casmurro, bate em minhas pálpebras desnorteadas,  dia feio, arremato, as nuvens eriçadas ousam sequestrar a luz, a alegria, o ânimo, a firmeza: avançam, as blusas, as jaquetas se preparam no guarda-roupas

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